Congresso do México leva fornecedores a cortar piratas reincidentes sem ordem judicial

06.11.2026 5 min 4

O Senado do México aprovou a 3 de novembro, por 72 votos contra 37, uma reforma dos direitos de autor: para manterem a proteção legal, os fornecedores de internet doméstica como a Telmex e a Izzi têm de publicar uma política para cortar o serviço a "infratores reincidentes". A Câmara dos Deputados aprovou o mesmo texto a 7 de outubro, por isso segue agora para o governo da presidente Claudia Sheinbaum para publicação. A lei não diz quem é um reincidente e não exige ordem judicial.

Em resumo

  • Um fornecedor sem essa política perde a proteção legal, e a multa pode chegar a cerca de 4,7 milhões de pesos, perto de 250 000 dólares.
  • O corte atinge toda a ligação, por isso os downloads de uma pessoa podem deixar uma casa inteira sem internet.
  • Cada fornecedor define o seu limiar. A proposta de exigir a ordem de um juiz não foi adotada.
  • As regras entram em vigor 180 dias após a publicação no diário oficial.

O que diz o texto

A alteração acrescenta uma condição ao artigo 114 Octies da lei federal dos direitos de autor. Para continuar protegido, um fornecedor tem de ter "uma política de cessação do serviço a infratores reincidentes". Tem de estar permanentemente no site do fornecedor e nos termos do serviço, e conter "mecanismos mínimos" de notificação do utilizador.

Em rigor, é uma condição de proteção e não uma ordem direta para desligar alguém. Segundo o novo artigo 114 Nonies, um fornecedor sem política só responde se também contribuir conscientemente para a infração, a induzir ou a causar, ou se puder controlar o utilizador e tirar proveito direto. Nesses casos, o novo artigo 232 Septies permite ao Instituto Mexicano da Propriedade Industrial aplicar multas até 40 000 vezes a unidade de referência UMA, cerca de 4,7 milhões de pesos ao valor de 2026.

Desde 2020 o México aplica este tipo de regra a plataformas de alojamento e motores de busca, que podem fechar contas. O TorrentFreak nota que o novo texto abrange os fornecedores de acesso doméstico, por isso o que termina é a própria linha de internet.

Quem decide

O texto não dá um número de queixas nem uma definição. "O projeto deixa cada fornecedor decidir quem é reincidente", disse ao EL CEO Aurora López-Portillo, diretora de serviços jurídicos da empresa de propriedade intelectual ClarkeModet. Na sua opinião, os fornecedores deviam verificar se a infração ficou mesmo provada, e não apenas contar avisos, e dar ao utilizador a oportunidade de responder. É o seu conselho, acrescentou, e não algo que a lei exija.

A oposição levantou as mesmas questões no Senado. A senadora do PRI Carolina Viggiano perguntou quem determina que houve infração e quando alguém é considerado reincidente. O senador Gabriel Elizondo alertou que as famílias partilham uma ligação. Uma proposta anterior da oposição para exigir ordem judicial antes da suspensão não foi adotada. O advogado de direitos de autor José Roberto Bonilla Bahena diz que os afetados poderão contestar um corte em tribunal através do amparo mexicano.

O partido no poder, Morena, rejeita o rótulo de "lei anti-memes", que os críticos aplicam também a uma reforma distinta sobre o uso indevido de logótipos oficiais. O senador Manuel Huerta chamou-lhe um exagero, e a senadora Martha Lucía Micher disse que o vazio legal tinha deixado milhares de criadores sem defesa.

O México segue o caminho inverso dos EUA

O governo propôs a alteração em maio para se alinhar com o acordo comercial USMCA, e os titulares de direitos dos EUA pressionavam nesse sentido. Em março, o Supremo Tribunal dos EUA anulou o veredicto de mil milhões de dólares contra o fornecedor Cox. "Uma empresa não é responsável por violar direitos de autor apenas por prestar um serviço ao público sabendo que alguns o usarão para infringir", escreveu o juiz Thomas. No México, falhar as condições de proteção passa a ser o primeiro passo para a responsabilidade.

A contagem ainda não começou. Até 6 de novembro, o TorrentFreak não tinha visto o decreto no diário oficial. Depois da publicação, os fornecedores terão 180 dias, e as suas políticas mostrarão quantas acusações bastam para perder a ligação. O México junta assim uma ferramenta à tendência mais ampla de agir na internet sem juiz, desta vez contra assinantes e não contra sites.

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