Instagram esconde na Índia um post que descreve como apaga as verificações do Alt News
A 17 de setembro, o Software Freedom Law Center (SFLC.in), uma organização de direitos digitais de Deli, publicou no Instagram um post sobre a forma como a plataforma apaga as verificações de factos do site Alt News. Um dia depois, o Instagram tornou esse post inacessível na Índia. Quando o Scroll noticiou a restrição e a SFLC citou o artigo numa story, a story também foi restringida. O aviso foi sempre a mesma frase: «sistemas automatizados implementados ao abrigo de requisitos legais». Nenhuma ordem, nenhuma entidade, nenhuma norma é indicada.
Em resumo
- A cadeia: em julho, o Alt News perdeu duas versões de um post sobre o filme Chauhaan, e a terceira só sobreviveu depois de retirado o nome do militante Burhan Wani. A SFLC contou isto a 17 de setembro; o post foi escondido a 18, a story com a citação do Scroll a 19.
- O bloqueio é geográfico. Fora da Índia os posts continuam visíveis, e a partir da Índia através de um servidor estrangeiro também. O utilizador indiano vê um espaço vazio.
- É a máquina que descrevemos em agosto: 195 000 ordens de bloqueio em cinco meses, uma a cada 68 segundos, com os sistemas da Meta ligados ao portal governamental Sahyog, de modo que um post sinalizado desaparece sem que ninguém o veja. A novidade: um post sobre o filtro agora aciona o filtro.
- Não há recurso que funcione. O formulário de queixas do Instagram não tem a opção «o meu post foi restringido por exigência legal», e o comité estatal de recurso não analisa um caso que não tenha passado primeiro por esse formulário. O relatório da SFLC conta cerca de 40 casos documentados até agosto. O mecanismo indiano está no nosso guia país a país do bloqueio sem tribunal.
Três posts, uma frase
Tudo começa com o teaser de um filme. Em Chauhaan, produção de Bollywood com Ajay Devgn, o protagonista despacha as espingardas de chumbo como um meio de dispersão de multidões com «danos limitados». O Alt News, o site de verificação de factos mais conhecido da Índia, confrontou essa fala com o registo documentado de cegueiras e mortes em Caxemira e, a 1 de julho, publicou no Instagram um carrossel com essa análise. Foi removido em minutos. O Alt News trocou as imagens e voltou a publicar; essa versão também caiu. A terceira, sem as duas referências a Burhan Wani, comandante do Hizbul Mujahideen morto em 2016, ficou online. A 19 de agosto, o Alt News descreveu a sequência e notou que pesquisar esse nome no Instagram não devolve nada.
A SFLC.in, que desde a primavera regista as remoções sofridas por jornalistas indianos, resumiu o caso num post no Instagram a 17 de setembro. A 18, a organização recebeu o aviso de que o post estava restringido na Índia. A 19, o Scroll publicou um artigo sobre a restrição; a SFLC partilhou-o numa story, e a story também foi restringida. O artigo do Scroll, no seu próprio site, não foi tocado. O aviso recebido pela SFLC repete quase palavra por palavra o que o Alt News recebeu em julho:
Aviso do Instagram ao Alt News, julho de 2026, citado pelo Alt News; a SFLC.in recebeu um texto quase idêntico a 18 de setembroSomos legalmente obrigados a restringir o acesso à sua publicação em determinados locais. Tomámos esta medida com base num requisito legal local. [...] através de um sistema automatizado implementado ao abrigo de requisitos legais.
- Qual lei, não se diz. Nestes avisos a Meta cita as IT Rules 2021 da Índia em geral, um conjunto de deveres de diligência para plataformas, e não uma ordem de bloqueio concreta ao abrigo da secção 69A da IT Act nem uma notificação ao abrigo da secção 79(3)(b).
- «Determinados locais» significa a Índia. De qualquer outro país o post é visível. O aviso não o diz; os utilizadores descobrem-no por amigos no estrangeiro.
- Um «requisito» pode ser uma notificação de uma entidade através do portal Sahyog ou a leitura que a própria Meta faz do que as regras a obrigam a remover. A SFLC diz que não consegue perceber qual se aplica ao seu post, e a Meta não respondeu nem ao Scroll, nem ao Alt News, nem ao Medianama.
- «Automatizado» é a palavra-chave. A Meta ligou os seus sistemas ao portal Sahyog por API; o conteúdo sinalizado pode ser removido sem revisão humana separada. Um post que cita um post restringido pode herdar a restrição.
O que aciona o filtro: um nome, uma captura de ecrã
O padrão do verão sugere que o filtro reage a palavras e imagens específicas, não a argumentos. O post do Alt News sobreviveu assim que «Burhan Wani» desapareceu. Ao Scroll, um post de 5 de julho sobre xenofobia no cinema de Bollywood foi restringido enquanto tinha uma captura do teaser de Chauhaan, e permitido quando o mesmo texto foi republicado com uma fotografia de Srinagar. Dois posts do Scroll de 6 de agosto sobre indemnizações a vítimas de chumbo foram bloqueados de imediato. Ao Alt News também foram restringidos posts com a palavra «khalistani», incluindo uma verificação que desmontava um vídeo mal atribuído de nihangs armados. Desde junho, o Scroll conta quatro posts seus retirados pela Meta.
Automático por lei
O Estado indiano tem duas vias para remover conteúdos. A secção 69A da IT Act é o poder formal de bloqueio, com comité, ordem escrita e regra de confidencialidade. A secção 79(3)(b) é o atalho: uma entidade comunica à plataforma que tem «conhecimento efetivo» de conteúdo ilícito, e a plataforma perde a imunidade de intermediário se não agir. O portal Sahyog, gerido desde 2024 pelo centro de cibercrime do Ministério do Interior, é onde essas notificações são apresentadas. Segundo o The Indian Express, foi por este canal que saíram as 195 000 ordens entre março e julho, cerca de 100 000 delas para o Instagram, com um pico durante os protestos estudantis contra irregularidades nos exames, iniciados em Jantar Mantar em junho.
Quando em maio desapareceu o reel de Rahul Gandhi com o chefe do governo de Tamil Nadu, o Ministério das Tecnologias chamou-lhe «erro interno» da Meta. Mais tarde, o próprio Press Information Bureau do governo confirmou que a Meta integrou a sua API com o Sahyog, de modo que o conteúdo sinalizado é removido automaticamente. Foi com este sistema que o post da SFLC esbarrou. Os casos do relatório da organização mostram o seu alcance:
| Quem | Quando | Plataforma | O que foi removido ou escondido | Motivo indicado |
|---|---|---|---|---|
| The Wire | Fevereiro de 2026 | Caricatura satírica do primeiro-ministro | Nenhum | |
| 4PM News Network | Março de 2026 | YouTube, Facebook | Canal com 8,4 milhões de subscritores restringido | «Questionar a autenticidade da resposta militar da Índia» ao atentado de Pahalgam |
| Mubashir Khurram, Mohammed Zubair, Revathi, South First | Junho de 2026 | X | 41 posts sobre violência contra um professor de urdu | «Nocivo para menores»; ameaça à «unidade, integridade, defesa, segurança» |
| Alt News | Julho de 2026 | Duas versões do post sobre Chauhaan; uma verificação sobre nihangs | IT Rules, sistema automatizado | |
| The Wire | Julho a agosto de 2026 | Instagram, Facebook | Verificação sobre nihangs; post sobre vítimas de chumbo em Caxemira; 22+ posts no total | Sem explicação clara |
| Scroll | Junho a agosto de 2026 | Meta | Quatro posts, incluindo as indemnizações por chumbo e a captura de Chauhaan | IT Rules |
| Reporter TV, Kairali News, Deshabhimani, News Malayalam | Agosto de 2026 | Meta | Dezenas de posts críticos do chefe do governo de Kerala | «Pedido legal do governo»; autor desconhecido |
| SFLC.in | 18 e 19 de setembro de 2026 | Post sobre o caso Alt News; story a citar o Scroll | «Sistemas automatizados implementados ao abrigo de requisitos legais» |
Onde recorrer: em lado nenhum que funcione
As IT Rules obrigam a Meta a ter um responsável por queixas na Índia e a dar aos utilizadores acesso ao Grievance Appellate Committee do governo. A SFLC tentou e encontrou o círculo fechado. O formulário de queixas do Instagram não tem categoria para um post restringido por pedido legal; o único caminho é o e-mail, a que a organização chama «atrito adicional excessivo», sem qualquer prazo. O comité de recurso, por sua vez, só aceita queixas depois de o responsável ter decidido. Um jornalista cujo post desaparece a meio do ciclo noticioso não tem, na prática, a quem perguntar nem o que invocar.
Os pedidos da SFLC são modestos: repor o post, indicar a base legal, colocar uma pessoa no circuito e criar um mecanismo de contestação que responda enquanto a notícia ainda está viva. O que a organização diz sobre o efeito geral vai além da Índia. Ninguém precisa de ordenar ao Scroll que não mostre ferimentos de chumbo. Assim que as redações sabem que nomes e que imagens fazem desaparecer um post, deixam de os usar, e isso funciona, nas palavras da SFLC, «mesmo sem uma ordem governamental formal».
O que um leitor na Índia pode fazer
A restrição é um geobloqueio, não um apagamento. O post da SFLC, o carrossel do Alt News e os textos do Scroll existem e carregam normalmente a partir de qualquer outro país, ou a partir da Índia através de um servidor VPN no estrangeiro, o que é legal na Índia. Isso ajuda a ver o que foi escondido; não devolve o post ao público para o qual foi escrito nem explica a ninguém por que desapareceu. O hábito que vale a pena copiar é o que o Alt News e a SFLC já adotaram: publicar o próprio aviso. Uma captura de ecrã de «legalmente obrigados a restringir o acesso», com data, é o único rasto de uma decisão que nenhuma entidade assinou.
O que restringiu o Instagram?
Foi o governo indiano que o ordenou?
Quem é Burhan Wani e por que importa o nome?
A SFLC pode recorrer?
Qual é a dimensão do programa de remoções na Índia?
• Digital rights group says its post about Instagram blocking 'Alt News' posts has been blocked - Scroll.in
• SFLC.in statement on automated takedown of its Instagram posts by Meta - SFLC.in
• Meta blocks SFLC post about Alt News takedown on Instagram - MediaNama
• Instagram censorship puzzle: Alt News post survives only after 'Burhan Wani' is removed - Alt News
• In dismissing pellet injuries as 'limited damage', 'Chauhaan' loses sight of Kashmir's grim, brutal reality - Alt News
• Meta restricts posts by Indian Youth Congress, AAP, Opposition leaders - Alt News
• Censorship by uncertainty: how content takedowns are reshaping digital media - SFLC.in
• Instagram censors Alt News post that mentioned 'Burhan Wani', without saying why - The Wire
• One blocking order every 68 seconds: India's social media takedowns surge - National Herald
• India is 157th out of 180 countries on RSF's 2026 World Press Freedom Index - The Wire