Turquia detém dois jornalistas por uma publicação no X sobre o escândalo dos fundos
A polícia turca deteve na madrugada de 9 de outubro dois jornalistas por causa de uma publicação no X ligada ao escândalo dos fundos de investimento do país. Mustafa Balcı, do jornal próximo da oposição Sözcü, e Şaban Sevinç, editor-chefe do canal online Bizim TV, são acusados de «divulgação pública de informações enganosas». O Ministério Público de Istambul levou-os a tribunal no mesmo dia e pediu a um juiz que os mantenha em prisão preventiva. Há poucas semanas, a Turquia bloqueava contas do X às centenas por causa deste escândalo. Agora detém quem escreve as publicações.
A publicação que levou às detenções
A 8 de outubro, Balcı publicou uma foto de um concerto de 22 de agosto em Bodrum. Segundo ele, mostrava Ömer Çelik, porta-voz do AKP do presidente Erdoğan, com Osman Arıkan Nacar, antigo responsável do Ministério da Saúde cujo nome surgiu na investigação aos fundos, sentado uma fila atrás dele. O site de notícias Serbestiyet notou que a identificação do homem feita por Balcı não foi verificada de forma independente e que a foto, por si só, não prova qualquer relação entre os dois. Balcı anunciou a sua própria detenção nas redes sociais. Sevinç foi detido depois dele.
Outros dois jornalistas da Sözcü TV, İsmail Saymaz e Murat Ağırel, foram convocados para prestar declarações como suspeitos pelo mesmo crime. Esse caso começou com uma queixa do ministro do Comércio, Ömer Bolat, sobre as declarações que fizeram em direto a respeito de quem poderá ter lucrado com os fundos. Ağırel disse que «transmitir uma alegação como alegação não é apresentá-la como facto estabelecido». O secretário-geral do AKP, Eyyüp Kadir İnan, disse à NTV que o partido enfrenta «uma rede de mentiras» e que a oposição «vai pagar o preço destas mentiras e calúnias».
Do que trata o escândalo dos fundos
A crise rebentou em meados de setembro, quando fundos de investimento que tinham aplicado dinheiro em ações difíceis de vender não conseguiram pagar os resgates. A 17 de setembro, o regulador do mercado de capitais ordenou a liquidação de 131 fundos geridos por sete empresas, o que afeta 455.758 investidores, segundo o Turkish Minute. O Ministério Público investiga uma alegada manipulação de mercado. Deputados da oposição perguntam se ministros ou familiares lucraram. Os dois ministros referidos negam-no, e a 8 de outubro os deputados do AKP e do seu aliado MHP rejeitaram cinco moções da oposição para um inquérito parlamentar.
A lei da desinformação por trás da acusação
A acusação baseia-se no artigo 217/A do Código Penal turco, acrescentado em outubro de 2022. Pune com pena de um a três anos de prisão a divulgação pública de informações falsas sobre segurança nacional, ordem pública ou saúde pública «com o único propósito de criar ansiedade, medo ou pânico», e a pena aumenta para metade para quem gere contas anónimas. O Comité para a Proteção dos Jornalistas contou 16 detenções de 14 jornalistas ao abrigo da lei em 2026 até 4 de setembro e concluiu que nenhuma das suas reportagens tinha causado medo ou pânico no público. O projeto turco de dados Veriler Ne Diyor estimou em abril que pelo menos 83 jornalistas foram acusados 114 vezes desde que a lei entrou em vigor.
À data da publicação, o tribunal não tinha anunciado se Balcı e Sevinç ficarão presos ou serão libertados. O caso mostra a passagem do bloqueio de contas para a perseguição judicial das pessoas por trás delas. Esconder uma publicação dos utilizadores turcos já não é o fim da história quando o autor pode ser identificado.
• Turkey's ruling party warns opposition as journalists detained over fund scandal - Turkish Minute
• Erdoğan's ruling party, ally block 5 bids to investigate Turkey's fund scandal - Turkish Minute
• Fon krizi: İsmail Saymaz ve Murat Ağırel ifadeye çağrıldı, Şaban Sevinç ve Mustafa Balcı adliyeye sevk edildi - Medyascope
• Fon skandalını yazan gazetecilere soruşturma: Sözcü muhabiri gözaltına alındı - Serbestiyet
• Inside Turkey's Lawfare: How Turkey uses its disinformation law against journalists - CPJ