O Reino Unido vai deixar sair da proibição para menores de 16 quem refizer as funções
No congresso trabalhista de 27 de setembro, a ministra da Cultura Lisa Nandy explicou como deve funcionar a proibição britânica das redes sociais para menores de 16 anos. O governo vai elaborar uma lista de plataformas vedadas às crianças, e as empresas poderão sair dela se refizerem as funcionalidades que o executivo considera perigosas.
«Vamos fazer legislação séria e abrangente, de modo a abranger não só aplicações concretas mas também as funcionalidades que consideramos inseguras», disse Nandy, acrescentando que «haverá uma forma de as empresas que queiram inovar e mudar se retirarem, no essencial, dessa lista».
Em resumo
- Uma lista nominal de plataformas vedadas, com saída para quem alterar as funcionalidades em causa.
- Os primeiros regulamentos são esperados até ao final de 2026 e a proibição vigoraria em 2027.
- O anúncio nada diz sobre como será apurada a idade, e é aí que está o custo.
- O governo já afirmou que não tenciona sancionar os pais que ajudem os filhos a contornar.
Um regulador a fazer de diretor de produto
O interessante não é a proibição, anunciada há meses, mas a isenção. Uma lista estatal da qual uma empresa sai mudando o seu produto transforma o regulador em revisor de desenho: a pergunta jurídica deixa de ser o que a plataforma publicou e passa a ser se o seu feed de recomendações, as notificações e a reprodução automática agradam a alguém em Whitehall.
O mesmo mecanismo chegou esta semana aos Estados Unidos por outro caminho, quando o TikTok aceitou refazer a conta de adolescente para encerrar um processo no Alabama. O Reino Unido propõe obter abertamente, por via regulamentar, o que o Alabama obteve em privado, por acordo. Nos dois casos é um estado que acaba a fixar o comportamento de uma aplicação.
O que o anúncio deixa de fora
Para manter os menores de 16 fora de uma plataforma é preciso saber quem tem menos de 16, e a única maneira de saber é verificar toda a gente. É o ponto cego recorrente destes anúncios: a proibição é apresentada como uma restrição às crianças, mas a sua mecânica recai sobre toda a população adulta, que terá de provar a idade para continuar a usar o que já usa.
Como se faz essa verificação é toda a questão de privacidade, e continua por resolver. Carregar um documento, estimar pelo rosto ou um verificador externo que guarda ambos são negócios muito diferentes. A Austrália empurra o controlo para baixo, para a loja de aplicações, como contámos quando passou a verificação de idade para o nível da plataforma, e o Reino Unido já está a levar verificações para o próprio aparelho. A camada escolhida decide quem fica com uma cópia da sua identificação.
Há ainda uma dimensão diplomática que não desapareceu. Em setembro a embaixada dos EUA convocou responsáveis britânicos por causa da Online Safety Act e precisamente desta proibição, lembrete de que a lista, quando existir, será sobretudo uma lista de empresas norte-americanas.
O próprio governo conta com o contorno
O invulgar neste caso é que os ministros não fingem o contrário. Sobre o modelo australiano, Nandy disse que «não mantém todos os menores de 16 fora das redes sociais» e que «haverá sempre formas que os jovens encontrarão para contornar». O ministério não prevê sancionar os pais que ajudem os filhos a contornar, e responsáveis admitiram que qualquer legislação «vale tanto quanto a nossa capacidade de a aplicar».
Na Austrália, onde já vigora uma proibição semelhante, que proporção de crianças dos 12 aos 15 anos continua a aceder a contas que lhes estão vedadas?
Três em cada cinco, cerca de 60%, segundo dados citados pela Molly Rose Foundation, que alertou para o facto de uma proibição destas dar mais «a perceção de segurança» do que segurança.
A frase mais franca de Nandy não era sequer sobre aplicação da lei. «Penso que é sinal de fracasso termos chegado, enquanto país, ao ponto de ter de retirar as crianças das redes sociais por completo», disse. É uma descrição justa da política e uma admissão pouco habitual vinda da ministra que a apresenta.
O que isto muda na prática
Para os adultos britânicos, o resultado provável é mais uma verificação de idade, em mais serviços e com mais frequência. Para os adolescentes, a experiência australiana sugere que a proibição muda o percurso, não o destino. É nessa folga que surgem as ferramentas de contorno, e sobre elas convém falar com precisão e não com entusiasmo: uma VPN muda o país em que um serviço julga que está, o que importa numa regra definida por geografia, e nada muda perante uma verificação que pede um documento ou um rosto.
O resumo honesto é que a parte difícil desta política ainda não foi anunciada. Uma lista de aplicações proibidas publica-se com facilidade e discute-se com facilidade. O sistema de verificação por baixo dela vai tocar todos os adultos do país e, três meses antes do prazo dos primeiros regulamentos, continua por descrever.