Quad9 pode deixar a França em vez de bloquear transmissões piratas para a beIN
A Quad9, fundação suíça sem fins lucrativos que opera o resolvedor DNS público 9.9.9.9, está a ponderar sair de França em vez de bloquear transmissões desportivas piratas para a beIN Sports. A emissora pediu a um tribunal de Paris que multe a fundação em 10.000 euros por dia por cada um dos 58 domínios que não bloqueou, até um total de 580.000 euros diários, noticiou o TorrentFreak a 5 de outubro. A audiência realizou-se na semana passada e a decisão é esperada dentro de cerca de três semanas.
Um resolvedor DNS converte o nome de um site num endereço IP. A maioria das pessoas usa o que o fornecedor de internet lhes atribui, mas qualquer pessoa pode mudar para um resolvedor público como a Quad9, a Google (8.8.8.8) ou a Cloudflare (1.1.1.1). A Quad9 também filtra domínios conhecidos de malware e phishing e não guarda os endereços IP dos utilizadores.
O que o tribunal ordenou
O caso diz respeito ao ténis feminino. A beIN Sports France detém os direitos franceses do circuito WTA de 2026, exceto os jogos disputados em França e os torneios do Grand Slam. A 13 de maio de 2026, o Tribunal Judicial de Paris ordenou à Google, à Quad9 e ao fornecedor de DNS checo Whalebone que bloqueassem seis sites e serviços de IPTV que transmitiam jogos da WTA, no prazo de três dias e até ao último jogo da época, atualmente marcado para 14 de novembro. O tribunal considerou que os resolvedores DNS são intermediários que «podem ajudar a pôr termo» às infrações, nos termos do artigo L. 333-10 do Código do Desporto francês, pelo que lhes pode ser ordenado o bloqueio, tal como aos fornecedores de internet.
A decisão também permite à beIN comunicar novos sites piratas ao regulador francês Arcom, que os transmite aos resolvedores para bloqueio durante o resto da época. Segundo a Quad9, a lista passou de 6 para 58 domínios em duas atualizações. Em maio, o tribunal recusou o pedido da beIN de uma multa diária de 2.000 euros por domínio, por nada indicar ainda que a Quad9 fosse resistir. A Quad9 não bloqueou nenhum dos domínios e diz tratar-se de uma decisão consciente. A beIN voltou agora a tribunal e pede cinco vezes esse valor.
Porque recusa a Quad9
A ordem abrange o acesso «a partir do território francês», e a Quad9 diz que não consegue saber quem se encontra nessa situação. «Não existe para nós nenhuma forma juridicamente útil de definir um utilizador francês», afirmou a fundação, explicando que teria de recorrer a bases de dados de geolocalização IP imprecisas ou recolher dados que não quer guardar. O seu argumento mais amplo é que «os resolvedores DNS recursivos são o lugar errado para combater o problema da pirataria online». Bloquear no resolvedor não tira a transmissão do ar, e o utilizador pode contornar o bloqueio mudando para outro resolvedor.
Segundo a Quad9, restam três opções: bloquear apenas os utilizadores que acredita estarem em França, sabendo que o palpite falhará em alguns casos; bloquear os 58 domínios para todo o mundo, o que equivaleria a aplicar globalmente uma ordem de um tribunal francês; ou deixar de servir a França, como fez o OpenDNS da Cisco em 2024, após uma ordem semelhante obtida pela Canal+. A Quad9 diz que ainda não discutiu a escolha com o seu Conselho da Fundação.
A Quad9 já esteve nesta situação. Num processo movido pela Sony Music na Alemanha, os tribunais entenderam que limitar o bloqueio a utilizadores alemães não bastava, e por isso a Quad9 bloqueou os domínios em todo o mundo durante algum tempo, até ganhar em recurso. Desde então, a França foi mais longe: ao abrigo de uma lei aprovada em julho de 2026, podem ser acrescentados novos domínios a um bloqueio durante uma transmissão em direto, cabendo à Arcom revê-los depois. A Quad9 classifica esse poder como «imprudentemente perigoso».
O que isto significa para os utilizadores
Para já, nada muda para quem está fora de França. Se a Quad9 optar por um bloqueio global, os utilizadores de qualquer parte do mundo que dependam do 9.9.9.9 deixariam de obter respostas para os domínios da lista. Se sair de França, os utilizadores que ali configuraram a Quad9 manualmente teriam de mudar para outro resolvedor, que talvez já esteja a bloquear os mesmos sites ao abrigo da mesma ordem. A Bélgica viveu uma disputa semelhante no mês passado, quando um tribunal confirmou o bloqueio de futebol pirata em resolvedores DNS públicos. O projeto de lei de bloqueio de sites no Congresso dos Estados Unidos também abrange os resolvedores.