Quad9 deixa de servir utilizadores em França a 24 de novembro após perder contra a beIN
A Quad9, a fundação suíça sem fins lucrativos que gere o resolvedor DNS público 9.9.9.9, vai deixar de servir os utilizadores em França a 24 de novembro. Anunciou-o a 22 de outubro, um dia depois de o Tribunal Judicial de Paris lhe ter dado razão contrária num processo movido pela beIN Sports. O tribunal ordenou à Quad9 que bloqueasse, para os utilizadores em França, sites piratas que transmitem o circuito de ténis WTA e fixou uma sanção de 1000 euros por cada dia de incumprimento.
«Esta decisão a favor da beIN obriga a Quad9 a bloquear a resolução DNS recursiva de vários nomes de domínio para os utilizadores localizados em França», escreveu a fundação. «Mas, para a Quad9, nunca foi apenas uma questão de dinheiro: é uma questão de princípio.»
A sanção é pequena, o precedente não
A beIN tinha pedido muito mais. Como noticiámos a 5 de outubro, a emissora queria 10 000 euros por dia por cada um dos 58 domínios não bloqueados, até 580 000 euros por dia. O tribunal reduziu o valor para 1000 euros por dia. A ordem de bloqueio vigora até ao fim da temporada WTA, a 14 de novembro, pelo que a Quad9 calcula o seu risco neste processo em cerca de 24 000 euros, mais custas.
Não é esse dinheiro que preocupa a fundação. Segundo a Quad9, há cerca de 20 outros processos pendentes em França contra ela e outros operadores de resolvedores, que exigem o bloqueio de centenas de domínios. «A Quad9 não consegue sobreviver à acumulação das sanções ainda por fixar em 20 outros processos pendentes», afirmou.
Outros intermediários saíram-se melhor no mesmo tribunal. A 7 de outubro, este recusou os pedidos da beIN de 10 000 euros por dia contra a Cloudflare, a Surfshark e a NordVPN, noticiou o TorrentFreak. A Cloudflare tinha bloqueado três de quatro sites através da sua CDN, e os dois fornecedores de VPN seis de onze nos seus servidores DNS em França. Os juízes entenderam que os intermediários devem fazer um esforço razoável, mas não têm de garantir o resultado. Em setembro, a Cloudflare também escapou às sanções pedidas pelo Canal+, mantendo o resolvedor 1.1.1.1 fora dos bloqueios. A Quad9, pelo contrário, não bloqueou nenhum domínio.
Porque é que a Quad9 prefere sair a bloquear
A Quad9 diz que não tem forma fiável de saber quem está em França: não guarda registos de utilizadores nem exige inscrição. Em 2021, num processo da Sony Music, tentou limitar um bloqueio aos utilizadores alemães através da geolocalização por IP. O autor da ação acedeu ao conteúdo bloqueado a partir da Alemanha com uma VPN e a Quad9 foi multada por desrespeito ao tribunal. Acabou por ganhar o caso em recurso, ao fim de vários anos e com custos de seis dígitos.
A outra opção, juntar os domínios à lista de bloqueio de malware aplicada a todos os utilizadores do 9.9.9.9 no mundo, satisfaria o tribunal. A Quad9 rejeitou-a porque estenderia uma decisão francesa ao mundo inteiro «em benefício comercial de uma única empresa privada estrangeira». A fundação lembra ainda que o bloqueio no resolvedor não tira nenhuma transmissão do ar, porque o utilizador pode mudar para qualquer um dos milhares de outros resolvedores abertos.
Há um recurso pendente. A Cisco seguiu o mesmo caminho em 2024, quando o seu resolvedor OpenDNS saiu de França depois de uma ordem de bloqueio obtida pelo Canal+.
O que muda para os utilizadores em França
A Quad9 publicou uma lista parcial das redes francesas que lhe enviam pedidos. Inclui a direção digital do Estado DINUM, a rede de investigação RENATER, a EDF, a SNCF, a France Télévisions, conselhos regionais e grupos hospitalares. A partir de 24 de novembro, os dispositivos e routers em França configurados com os endereços da Quad9 (9.9.9.9, 149.112.112.112, 2620:fe::fe e os restantes endereços do serviço) deixarão de receber respostas, e os sites não abrirão até se mudar o DNS. A Quad9 espera que 30 dias cheguem para a mudança. Os administradores que contavam com a sua filtragem de domínios maliciosos vão precisar de outro resolvedor com filtragem. Qualquer resolvedor que sirva França pode receber as mesmas ordens de bloqueio.