Fogo posto na estação Starlink polaca que serve a Ucrânia

24.09.2026 8 min 6

Por volta das nove da noite de quarta-feira, 23 de setembro, os bombeiros foram chamados a uma estação terrestre em Wola Krobowska, uma aldeia a sul de Varsóvia. O fogo levou a alimentação eléctrica: o posto de transformação, o quadro de distribuição e o gerador. A instalação pertence à Exatel, o operador estatal de telecomunicações da Polónia, e é um dos pontos onde as ligações por satélite, incluindo a Starlink, encontram a rede terrestre a caminho da região e da Ucrânia.

Na manhã de quinta-feira a estação já funcionava de novo, e o ministro polaco dos Assuntos Digitais falava de fogo posto contra infraestrutura crítica. Saber se a Rússia o mandou fazer é outra questão, e os mesmos responsáveis que usaram a palavra sabotagem evitaram respondê-la.

Em resumo

  • O incêndio atingiu o equipamento eléctrico de uma estação terrestre da Exatel perto de Varsóvia na noite de 23 de setembro.
  • Foram ao local a polícia e a agência de segurança interna ABW; tudo aponta para fogo posto e a estação continuou a funcionar.
  • O ministro disse que o modo de actuar é "claramente russo" e também que é impossível afirmá-lo com certeza.
  • A Polónia soma 31 dos 151 casos de sabotagem ligados à Rússia contados na Europa desde 2022.

O que ardeu e o que faz aquele edifício

O proprietário ligou para a emergência a dar conta de antenas a arder e de um gerador danificado. Os bombeiros dominaram o fogo e isolaram o local; polícias e agentes da ABW, a segurança interna polaca, apareceram porque o incêndio pareceu intencional desde o início. A leitura preliminar é que alguém deitou fogo ao quadro eléctrico, ainda que uma avaria não esteja formalmente afastada. O serviço foi reposto na manhã seguinte.

Uma constelação de satélites não chega à internet sozinha. As estações terrestres são a dobradiça: puxam o tráfego dos satélites e entregam-no à fibra terrestre, e ao contrário. Segundo o meio polaco Defence24, esta instalação, com outra na Lituânia, serve toda a Europa Central e de Leste, incluindo a Ucrânia, onde os terminais Starlink são desde o início da guerra parte central das comunicações militares e civis. Queimar um quadro de distribuição é barato. Reconstruir uma dobradiça regional não é.

151casos de sabotagem ligados à Rússia na Europa desde 2022
31deles na Polónia, mais do que em qualquer outro país
95%dos autores identificados eram civis comuns
2estações servem a região: esta e uma na Lituânia

O que os responsáveis disseram e o que recusaram dizer

Krzysztof Gawkowski, ministro dos Assuntos Digitais e vice-primeiro-ministro, deu duas entrevistas nessa manhã, e a diferença entre elas é a notícia. Na TVN afirmou: "Estamos perante um fogo posto destinado a atingir infraestrutura crítica de telecomunicações que condiciona o funcionamento da internet", acrescentando que "o modo de actuar neste caso é claramente russo" e que é "mais um elemento da guerra híbrida que enfrentamos". O objectivo descreveu-o em termos gerais: "Os russos querem paralisar a infraestrutura crítica, cortar a água, o gás e a electricidade, paralisar a internet. Todos estes processos têm um único fim: semear pânico e agitar emoções."

À TVP o mesmo ministro reconheceu que por agora "é impossível dizer" se a Rússia está por trás deste incêndio em concreto. Jacek Dobrzyński, porta-voz dos serviços de segurança, foi directo: "nesta fase ainda é cedo para falar de causas ou motivos deste incêndio", confirmando porém que "tudo aponta para fogo posto". O ministro da Justiça Waldemar Żurek disse que a hipótese de sabotagem está em cima da mesa e que nada é excluído. Esse intervalo entre um padrão reconhecido e um caso provado vale a pena manter aberto, porque é precisamente o que um título fecha cedo demais.

  1. Uma linha férrea é rebentada na Polónia; os suspeitos fogem para a Bielorrússia e ficam sob alerta da Interpol.
  2. Incêndio na JFG Composites, em Lublin, fabricante de componentes aeronáuticos.
  3. Incêndio na WB Electronics, o maior fabricante de drones da UE; o Ministério Público abre inquérito por terrorismo.
  4. O primeiro-ministro Tusk diz que não há "qualquer dúvida" de que foi fogo posto.
  5. Um helicóptero russo entra por momentos no espaço aéreo polaco; à noite arde a estação terrestre.
  6. A estação volta ao serviço e os ministros falam em sabotagem.
Por apurar: quem ateou o fogo e por ordem de quem. Os serviços de segurança consideram prematuro falar de causas e motivos, e uma avaria eléctrica não está formalmente afastada. A Polónia atribuiu à Rússia outros incêndios recentes, o que é contexto e não prova neste caso.

O padrão que os números descrevem

Uma base conjunta do International Centre for Counter-Terrorism e da GLOBSEC contou na Europa 151 casos de sabotagem ligados à Rússia entre fevereiro de 2022 e fevereiro de 2026, com 172 autores identificados. À Polónia cabem 31, 21% e mais do que a qualquer outro país, e dos 41 casos acrescentados desde a edição anterior onze são polacos. Os autores avisam que o número real é provavelmente maior, porque os casos só vêm a público depois de investigações longas ou quando se consegue apontar um nome.

O método explica-se por quem executa. Cerca de 95% dessas 172 pessoas eram civis comuns sem ligação formal aos serviços russos, descritos pelos investigadores como descartáveis. A ABW polaca referiu que o modelo está a passar do recrutamento pontual pela internet para células construídas sobre estruturas já existentes do crime organizado, com interesse por ex-militares e ex-polícias. Daí alvos que parecem aleatórios e baratos: a um desconhecido pago, com um bidão, não é preciso saber o que faz um quadro de distribuição, basta saber onde está.

Que percentagem dos 172 autores identificados de sabotagens ligadas à Rússia na Europa não tinha ligação formal aos serviços russos?

Dados da base do ICCT e da GLOBSEC. Os investigadores chamam-lhes agentes descartáveis: contratados para um trabalho, mal pagos e fáceis de substituir. É isso que torna a campanha barata e difícil de dissuadir.

Porque a estação terrestre é o ponto fraco

A internet por satélite é a resposta habitual quando um Estado desliga a rede: com os cabos e as antenas desligados, uma parabólica no telhado continua a encontrar um satélite. Só que essa resposta tem uma dependência física que o utilizador nunca vê, e está num campo atrás de uma aldeia. Aos satélites não chega ninguém. Ao edifício onde o tráfego deles aterra chega qualquer pessoa com um escadote.

A Europa respondeu à questão da dependência construindo a sua própria constelação em vez de blindar o segmento terrestre, como vimos quando a UE aprovou o IRIS², uma rede que não é um Starlink para os cidadãos. A mesma lição chega repetidamente do mar: cabos e pontos de amarração são onde um ataque custa menos, como na ligação de fibra cortada entre a Finlândia e a Rússia.

O que isto muda numa ligação comum

Nada do que se instala no telemóvel ajuda aqui. Uma VPN protege o tráfego enquanto ele viaja; não tem resposta quando arde a alimentação do edifício que o transporta. Só a redundância serve, e essa é uma decisão de operadores e Estados, não de utilizadores: mais do que uma estação terrestre por região, alimentação de emergência a sério e segurança física em locais desenhados como simples edifícios industriais.

Para uma pessoa, a versão prática é menor. Tenha uma segunda ligação que não partilhe a infraestrutura da primeira, normalmente dados móveis ao lado da fixa. Tenha instalada uma aplicação de mensagens capaz de funcionar sem rede. E trate uma falha como informação: um apagão nacional e um dirigido são iguais vistos da cozinha, e ambos merecem uma verificação numa página de estado antes de culpar o router.

O incêndio deitou abaixo a Starlink na região?
Não. A estação manteve-se operacional e na manhã seguinte o local funcionava normalmente. O fogo danificou o equipamento eléctrico, não a ligação por satélite.
Está provado que foi a Rússia?
Não. O ministro dos Assuntos Digitais disse que o modo de actuar é claramente russo, mas disse também que não se pode afirmar com certeza, e os serviços de segurança consideram prematuro falar de causas ou motivos.
Porquê atacar uma estação terrestre em vez dos satélites?
Porque é alcançável. Os satélites estão fora do alcance de um incendiário; o edifício onde o tráfego deles encontra a fibra é uma instalação comum numa aldeia e serve uma região inteira com uma estação na Lituânia.
Com que frequência acontece algo assim?
A base do ICCT e da GLOBSEC conta 151 casos de sabotagem ligados à Rússia na Europa entre fevereiro de 2022 e fevereiro de 2026, 31 deles na Polónia, e nota que o número real será maior.
Uma VPN ajuda se atacarem a infraestrutura?
Não. Uma VPN cifra e reencaminha tráfego em movimento; não cria um caminho onde o físico foi destruído. O que ajuda é uma segunda rota independente para a rede.

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