Teclado do iPhone evita sugerir cerca de 100 mil frases sem avisar, diz investigador

07.11.2026 4 min 6

O teclado do iPhone guarda uma lista oculta de palavras e frases que não sugere, informou o investigador Derik Kauffman a 6 de novembro. Ele publicou as listas do inglês e de outras línguas, decifradas a partir dos ficheiros de dados da Apple. A maioria das entradas é vulgar ou trata de drogas, sexo e violência, mas também aparecem "NSA surveillance" (vigilância da NSA), "Tibetan independence" (independência do Tibete) e "dictator Trump". A Reuters testou uma pequena amostra num iPhone e o teclado comportou-se como descrito.

Em resumo

  • Nada é proibido. Letra a letra pode escrever-se tudo: a lista só afeta o texto preditivo e a escrita por deslize.
  • As cerca de 100 000 entradas são uma estimativa prudente de Kauffman para todas as línguas, sem o chinês. A Apple não confirmou nem o tamanho nem o conteúdo.
  • A Apple disse que o teclado evita sugestões inadequadas ou ofensivas e não explicou as entradas políticas.
4 513frases em inglês no iOS 27.0, contra cerca de 1700 no iOS 14.0 em 2020
27outras línguas e escritas com listas semelhantes

O que o teclado faz

O texto preditivo nunca oferece uma frase da lista, mesmo quando é a continuação óbvia. Por deslize também não costuma sair: o teclado escolhe outra palavra ou altera uma já escrita. No teste da Reuters, deslizar "United Ireland" dava muitas vezes "United Iceland", "Sleepy Joe" dava "Sleepy hope" e "white man" dava "white mean", enquanto "red man" passava. "Dictator Trump" podia ser escrito por deslize, mas com "trump" em minúscula, e o preenchimento automático sugeria antes "dictator trumps".

As regras só apanham sequências exatas de palavras, por isso uma pequena alteração passa. "Taiwan is country" está bloqueado e "Taiwan is a country" não. A verificação corre localmente no dispositivo, antes de surgir uma sugestão.

O que mais está na lista

Cada língua tem entradas próprias. Em hindi há provocações a Narendra Modi e Rahul Gandhi, em hebraico "os territórios ocupados", em italiano "a Crimeia é russa", em turco "genocídio arménio", em francês "imigração demasiado alta". As listas chinesas incluem "Quatro de Junho" e o nome de Liu Xiaobo, mas ali o mecanismo é outro: as palavras aparecem, e depois o teclado deixa de sugerir a continuação. A tabela russa só está parcialmente decifrada, e entre as entradas legíveis está "guerra com a Geórgia".

Algumas escolhas parecem incoerentes. "Read smut" (ler textos picantes) pode ser escrito por deslize e "read gay smut" não. "I'm white" está bloqueado e "I'm black" não.

Como a lista foi encontrada

Kauffman disse à Reuters que começou em setembro, quando a escrita por deslize encravava em certas frases. Seguiu a causa com o Codex da OpenAI e o Claude Code da Anthropic. As tabelas não guardam texto, mas impressões de 32 bits, por isso as frases foram recuperadas testando candidatas. As listas publicadas estão incompletas e o código é público. O engenheiro Matt Suiche, da Tolmo, disse à Reuters que recuperou a mesma lista de forma independente e obteve uma correspondência quase perfeita.

O histórico mostra que a lista é editada. "Dictator Trump" chegou com o iOS 16.1 e "sleepy Joe" com o iOS 16.2. "President Trump" e "President Bush" foram bloqueados em 2022 e retirados no iOS 26.3. A única adição do iOS 27.0 foi "Zionist propaganda". Kauffman avisa que a presença de uma frase nada diz sobre o motivo pelo qual a Apple a incluiu.

"Isto não devia ser secreto"

A Apple respondeu à Reuters que o utilizador pode sempre escrever qualquer palavra e ignorar as sugestões. Não comentou diretamente as conclusões. Kauffman diz compreender que a Apple queira evitar sugestões obscenas ou incendiárias, mas acrescenta: "É uma forma de censura muito leve. Mas à escala da Apple, basta um toque leve para ter um grande impacto."

David Greene, consultor jurídico sénior da Electronic Frontier Foundation, disse que uma parte dele achava a lista assustadora, embora veja argumentos para travar sugestões indesejadas. "Mas se o vão fazer, os utilizadores deviam estar bem cientes disso e ter alguma capacidade de o personalizar", disse à Reuters. "Isto não devia ser secreto."

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