A Finlândia corta uma ligação de fibra à Rússia, e o título dos 70 por cento está errado

01.08.2026 5 min de leitura 3
A Finlândia corta uma ligação de fibra à Rússia, e o título dos 70 por cento está errado

A Finlândia está a desligar uma linha de fibra ótica que entra na Rússia. A Fingrid, operadora estatal da rede elétrica finlandesa, não vai renovar o aluguer do cabo quando este expirar no final de 2026 e deixa de manter, a partir de 2027, as torres transfronteiriças onde a fibra está suspensa. A ligação de fibra Finlândia - Rússia sobreviveu quatro anos ao comércio de eletricidade para o qual foi construída, e o seu fim está a ser contado na Rússia como o momento em que a Europa desliga o país. Os números dizem algo mais estreito.

O que a Fingrid comunicou de facto aos operadores russos

A história começou a 29 de julho de 2026, quando o Kommersant, citando fontes do mercado russo de telecomunicações, noticiou que a Fingrid tinha avisado os operadores do fim da manutenção das torres a partir de 2027. Segundo esse relato, o plano é direto: o cabo é cortado e as torres são desmontadas. A explicação da própria Fingrid é económica e não política. A Rússia deixou de fornecer eletricidade à Finlândia em 2022, as linhas nada transportam desde então e manter torres de aço apenas para que a fibra de outra empresa tenha onde ficar deixou de fazer sentido.

A Rosseti, operadora da rede do lado russo, confirmou a situação de partida: a linha de 400 kV entre Vyborg e a Finlândia funciona em modo limitado há anos e já não é usada para transportar eletricidade. Antes da paragem, a Fingrid explorava cinco linhas transfronteiriças, três de 400 kV e duas de 110 kV, que só em 2021 levaram 9,1 terawatts-hora para a Finlândia. Esse comércio acabou. A fibra era a última coisa viva no traçado.

A ligação de fibra Finlândia - Rússia e o número dos 70 por cento

Na cobertura, dois números diferentes foram soldados num só. O primeiro: até 30 por cento de todas as linhas de comunicação entre a Rússia e a Finlândia passam por aquelas torres elétricas. O segundo: desde 2022, cerca de 60 a 70 por cento do tráfego externo de internet da Rússia transita pela Finlândia no total, por todas as rotas, e não apenas pelas montadas em torres. Os títulos que fundiram as duas coisas em "a Finlândia corta 60 a 70 por cento da internet russa" descrevem algo que não está a acontecer.

A versão da própria Fingrid é ainda mais restrita. À estação pública finlandesa Yle, a empresa afirmou que está em causa uma única linha de fibra alugada, e não o feixe descrito pela imprensa russa, e que o seu encerramento dificilmente terá efeito significativo nas telecomunicações entre os dois países. O The Record recolheu a mesma posição: o impacto na conectividade é, nas palavras da Fingrid, muito limitado.

Importante: a fatia de linhas fisicamente suspensas nas torres desativadas e a fatia do tráfego externo russo que transita pela Finlândia são números diferentes. Perder a primeira não equivale a perder a segunda.

Por onde vai passar o tráfego

Os operadores russos disseram ao Kommersant que já negoceiam rotas alternativas e dispõem de capacidade de reserva por outros caminhos: pela Bielorrússia, pelos países bálticos e pelos sistemas de cabo submarino do mar Báltico. Os especialistas citados no mesmo trabalho não esperam um golpe sério para os assinantes comuns. A ressalva é regional. Se a capacidade perdida não for totalmente substituída, os utilizadores do noroeste e da parte europeia da Rússia podem sentir mais latência e um acesso degradado a recursos europeus. É exatamente o público que já encaminha o seu tráfego por pontos de saída europeus quando os bloqueios internos tornam o acesso direto pouco fiável.

Porque é que a internet estava pendurada numa linha elétrica

Fibra instalada em torres de alta tensão é infraestrutura padrão e não improviso. As operadoras de rede integram cabo ótico nas suas próprias linhas para vigiar o sistema e alugam as fibras livres às empresas de telecomunicações, que ganham um corredor pronto através de terreno difícil sem abrir valas nem criar a sua própria passagem de fronteira. O arranjo é barato e invisível enquanto a linha que o suporta estiver viva. Quando a eletricidade deixa de correr, as torres passam a ser custo sem receita e os dados que ali viajam ficam sem senhorio.

Uma fronteira cada vez mais fina

O cabo insere-se num endurecimento mais amplo. A Finlândia aderiu à NATO depois da invasão de 2022, o seu serviço de segurança descreve desde então a Rússia como hostil e o mar Báltico registou uma série de danos em cabos submarinos e gasodutos. Em paralelo, a Rússia estreita há anos a sua própria ligação por dentro: inspeção profunda de pacotes implantada em todo o país, abrandamentos e bloqueios que transformaram as ferramentas de contorno num produto de massas, como noticiámos quando Moscovo gastou milhões em novo equipamento de filtragem e as descargas de VPN cresceram catorze vezes. Dias antes da história da fibra, o Estado colocou o fundador do Telegram no seu registo de terroristas. Capacidade externa a encolher enquanto a filtragem interna cresce é a mesma pressão a chegar de dois lados.

Conclusão

Conclusão: a ligação de fibra Finlândia - Rússia termina porque a linha elétrica que a sustentava morreu em 2022, e não porque a Europa tenha encontrado um novo interruptor. Um cabo alugado apaga-se no final de 2026, as torres caem a partir de 2027 e o tráfego desvia-se pela Bielorrússia, pelos bálticos e pelo mar Báltico. O risco mensurável são caminhos mais lentos e congestionados para a Europa no noroeste do país, além da filtragem que já torna a ligação direta pouco fiável.
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