O ministério da Cultura espanhol manda bloquear o archive.today e os seus espelhos

19.09.2026 10 min 5

Os maiores fornecedores de internet de Espanha começaram a bloquear o archive.today, o serviço anónimo de arquivo da web que guarda instantâneos de páginas mesmo quando estão atrás de paywalls, por ordem do ministério da Cultura. O bloqueio vem da Sección Segunda da Comissão de Propriedade Intelectual, o órgão administrativo que encerra sites "piratas" desde 2012; começou em alguns operadores a meio de agosto e nos últimos dias estendeu-se a todos os fornecedores aderentes ao protocolo de bloqueio do setor, que cobre 98% das linhas de banda larga espanholas. Na O2 o endereço devolve agora a página do ministério "Está a tentar aceder a um site ilegal"; a Vodafone mostra um "indisponível" vazio; a Digi ainda deixa passar. O ministério não anunciou a decisão, mas a sua própria lista de bloqueios, atualizada a 18 de setembro, já inclui archive.today, archive.is, archive.ph, archive.li, archive.md, archive.fo e archive.vn entre os domínios com resolução definitiva. Para os utilizadores espanhóis a entrada é a mesma de uma transmissão de futebol bloqueada: um resolvedor DNS fora do fornecedor, Encrypted Client Hello no navegador ou uma VPN.

Em resumo

  • A ordem nasce do "procedimiento de salvaguarda", uma queixa de um titular de direitos à Sección Segunda. Nenhum tribunal decide se o site infringe de facto: a lei dá a um juiz administrativo central 24 horas para verificar apenas os direitos fundamentais, e desde 2019 os alvos reincidentes estabelecidos fora da UE não precisam de qualquer passo judicial.
  • O Bandaancha, que revelou o bloqueio na quinta-feira, aponta a imprensa digital como queixoso mais provável, porque o archive.today é a ferramenta padrão para ler artigos pagos e ignora o robots.txt. Nenhuma resolução foi publicada e o ministério não respondeu às perguntas do Xataka.
  • Os registos do ministério mostram a dimensão da máquina: 402 domínios com resolução definitiva desde 2012, 1.676 na lista total enviada ao WIPO Alert e 536 acrescentados só em 2026, a maioria através da lista semanal de domínios espelho que os operadores acordaram em 2021 com a coligação de titulares.
  • O archive.today foi bloqueado na Rússia e na China e, temporariamente, na Austrália e na Nova Zelândia, nunca por direitos de autor; o bloqueio espanhol é o primeiro conhecido ao abrigo de regras de copyright. O mesmo circuito administrativo que a LaLiga usa contra as transmissões de futebol, e que um tribunal de Córdova se recusou a estender aos fornecedores de VPN, é agora aplicado a uma biblioteca da web.

O que foi bloqueado e como

O archive.today tira "instantâneos" de páginas web desde 2012: o utilizador cola um URL, o serviço guarda uma cópia da página tal como estava nesse momento e a cópia fica acessível numa ligação curta archive.ph ou archive.is. É o primo mais pequeno e mais estranho da Wayback Machine do Internet Archive. O seu operador nunca foi identificado, não respeita as exclusões do robots.txt e captura artigos atrás de paywalls, o que o tornou ferramenta habitual de redações, tribunais e citações da Wikipédia, e alvo dos editores. O bloqueio espanhol veio à tona na quinta-feira, quando o site tecnológico Bandaancha seguiu as queixas dos utilizadores até à Sección Segunda de la Comisión de Propiedad Intelectual, a unidade do ministério da Cultura que gere o procedimento administrativo antipirataria. Os testes do Xataka mostraram como a aplicação é desigual: os clientes da O2 recebem a página oficial de aviso do ministério, os da Vodafone uma mensagem de que o site "não está disponível por causas alheias à Vodafone" e os da Digi continuam a chegar ao archive.ph sem problemas; nalgumas redes falha a versão HTTPS cifrada enquanto o HTTP sem cifra redireciona para a página governamental, noutras é o contrário. Esse padrão é a assinatura do protocolo de bloqueio espanhol, em que cada operador aplica a mesma lista com os seus próprios filtros. O Bandaancha e o Xataka notaram na quinta-feira que os domínios ainda não constavam da lista pública de sites bloqueados do ministério. Na sexta-feira já constavam: a lista de "domínios objeto de resolução definitiva da S2CPI, 2012-2026", atualizada a 18 de setembro, inclui os sete nomes archive.*, e a lista semanal de novos domínios do procedimento de salvaguarda coloca-os no segundo trimestre de 2026.

7domínios do archive.today na lista do ministério: .today, .is, .ph, .li, .md, .fo e .vn
402domínios com resolução definitiva da Sección Segunda desde 2012, segundo a lista de 18 de setembro
536domínios acrescentados à lista de bloqueios espanhola em 2026 até agora: 95 por resolução, 441 pelo protocolo dos operadores
98%das linhas de banda larga espanholas servidas pelos operadores que assinaram o protocolo de bloqueio de 2021
Domínios bloqueados em Espanha pelo ministério da Cultura em 2026por trimestre e por via de entrada
TrimestreResoluções da Sección SegundaProtocolo dos operadores
1.º trim. 202628162
2.º trim. 202667162
3.º trim. 2026 (até 18 set.)0117

Onde está o juiz neste procedimento

O sistema espanhol é muitas vezes descrito como bloqueio "sem tribunal", e a descrição está suficientemente perto da verdade para merecer ser desmontada. A Sección Segunda é um órgão do ministério, não um tribunal. Um titular de direitos apresenta uma queixa; a secção notifica o site, dá-lhe a oportunidade de retirar o conteúdo e, se não o fizer, emite uma resolução que ordena a retirada e, quando o site é inalcançável ou recusa, ordena aos operadores espanhóis que o bloqueiem. A lei exige então que a secção peça ao Juzgado Central de lo Contencioso-Administrativo autorização para executar o bloqueio, mas o papel do juiz é deliberadamente estreito: uma decisão em 24 horas, ouvido o Ministério Público, limitada a verificar que a medida não viola os direitos constitucionais à privacidade e à informação. Se o site infringe de facto não é a pergunta do juiz. Uma reforma de 2019, o artigo 195.6 da lei da propriedade intelectual, eliminou até esse passo para os alvos reincidentes estabelecidos fora da UE e do Espaço Económico Europeu, e o archive.today, sem operador nem morada conhecidos, encaixa nessa descrição melhor do que a maioria. Por cima do procedimento legal está o protocolo de 2021 assinado no Prado pela associação dos operadores e pela coligação de titulares: uma vez que um site esteja na lista, os seus novos domínios são acrescentados semanalmente sem qualquer decisão adicional, e foi assim que este ano 441 endereços entraram na lista contra 95 por resolução formal. O palpite do Bandaancha sobre o queixoso, a imprensa digital, coincide com a única coisa que o archive.today faz e a maioria dos arquivos não: guarda o texto de artigos pagos e serve-o a quem tiver a ligação. É uma queixa de direitos de autor por construção, e o procedimento espanhol foi feito para responder a queixas de direitos de autor em semanas. Aquilo para que não foi feito é a pergunta que um tribunal teria de fazer: se um arquivo de uso geral usado para provas, verificação de factos e citações é um "site pirata" porque parte do que guarda é jornalismo pago. A câmara privada de bloqueios da Alemanha fixou pelo menos um limiar, 81,5% de conteúdo infrator, antes de tocar num domínio. A lista espanhola não diz qual foi o limiar aqui, nem se houve algum.

O que não está confirmado: o ministério não publicou qualquer resolução sobre o archive.today e não respondeu ao Xataka, pelo que o queixoso, a data da decisão e se a autorização judicial de 24 horas foi pedida são desconhecidos. Os sete domínios constam das listas do ministério datadas de 18 de setembro, mas as listas não indicam número de resolução. A identidade do operador do archive.today não é pública; o Xataka nota que o FBI tentou apurá-la. Não foi dito se a Digi e outros operadores fora do protocolo vão seguir, nem se o bloqueio se estenderá aos restantes espelhos do arquivo.

O que muda para os utilizadores em Espanha

O bloqueio é por domínio e aplicado no fornecedor, por isso falha das mesmas formas que qualquer bloqueio espanhol por direitos de autor. O próprio guia do Xataka para contornar os filtros dos operadores recomenda ativar o Encrypted Client Hello no Chrome, que esconde o nome de domínio do filtro do fornecedor; um resolvedor DNS fora do fornecedor anula a variante DNS do bloqueio; e uma VPN leva a ligação para fora de Espanha por completo, o que é legal, e pelo qual um tribunal de Córdova em maio não deixou a LaLiga punir um fornecedor de VPN. Nada disto devia ser necessário para ler o instantâneo de uma página web pública, e o facto de agora ser necessário em Espanha para um dos poucos arquivos funcionais da internet é a notícia. O procedimento que produziu o bloqueio foi desenhado para conversores de MP3 e proxies de torrents, que compõem quase por completo os 402 domínios da lista de resoluções; agora foi apontado, sem decisão publicada, a um serviço de que bibliotecas, jornalistas e tribunais dependem para provar o que uma página dizia num determinado dia. Os editores que muito provavelmente apresentaram a queixa são também aqueles cujas correções e apagamentos o archive.today torna visíveis. Por isso o bloqueio importa para lá de Espanha: cada país da UE tem uma diretiva de direitos de autor para aplicar, e Espanha acaba de mostrar que uma secção administrativa, uma lista semanal e um queixoso que prefere não ser nomeado bastam para retirar um pedaço da memória da web a um país de 49 milhões de habitantes.

Quem bloqueou o archive.today em Espanha?
A Sección Segunda da Comissão de Propriedade Intelectual, um órgão administrativo do ministério da Cultura, ordenou aos operadores que bloqueassem o archive.today e os seus espelhos archive.is, archive.ph, archive.li, archive.md, archive.fo e archive.vn. O bloqueio começou em alguns operadores a meio de agosto e chegou agora a todos os fornecedores do protocolo de bloqueio de 2021.
Foi um tribunal que decidiu?
Não quanto ao fundo. As ordens de bloqueio da secção precisam de uma autorização em 24 horas do Juzgado Central de lo Contencioso-Administrativo, que verifica apenas os direitos fundamentais, e desde 2019 os alvos reincidentes estabelecidos fora da UE podem ser bloqueados sem esse passo. Não foi publicada qualquer resolução ou documento judicial sobre o archive.today.
Porque foi visado?
O ministério não disse. O Bandaancha, que revelou o caso, aponta a imprensa digital: o archive.today guarda artigos pagos, ignora o robots.txt e é muito usado para os ler de graça, o que faz dele um alvo natural para uma queixa de direitos de autor.
O bloqueio é igual em todos os operadores?
Não. O Xataka encontrou na O2 a página do ministério sobre o "site ilegal", na Vodafone uma mensagem genérica de indisponibilidade e na Digi nenhum bloqueio; os pedidos HTTPS e HTTP comportam-se de forma diferente na mesma rede. Cada operador aplica a lista comum com os seus próprios filtros.
Como podem os utilizadores em Espanha aceder?
Ativando o Encrypted Client Hello no navegador, usando um resolvedor DNS fora do fornecedor ou uma VPN; tudo legal. O bloqueio visa o nome de domínio ao nível do fornecedor e não afeta o arquivo em si.

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