Senadores acusam a administração Trump de esconder ilegalmente uma decisão FISA

26.10.2026 4 min 6

Os senadores norte-americanos Ron Wyden e Adam Schiff acusam a administração Trump de violar a lei ao manter em segredo uma decisão do tribunal FISA sobre a forma como as agências de informações pesquisam as mensagens dos norte-americanos. Numa carta ao diretor nacional de informações, Jay Clayton, e ao procurador-geral, Todd Blanche, revelada pela WIRED a 26 de outubro, exigem até 6 de novembro uma explicação para o atraso e os nomes dos responsáveis.

O Foreign Intelligence Surveillance Court (FISC) proferiu a decisão em março de 2026. Segundo a WIRED, o tribunal contestou filtros de pesquisa que permitiam aos analistas retirar mensagens de norte-americanos dos dados intercetados sem as autorizações, justificações escritas ou registos exigidos por lei. Ainda assim, aprovou mais um ano de vigilância ao abrigo da secção 702 do Foreign Intelligence Surveillance Act (FISA).

Um prazo que a própria administração aceitou

Por lei, as decisões relevantes do tribunal FISA têm de ser desclassificadas e publicadas. A documentação pública da própria administração diz que estas decisões são analisadas para publicação «no prazo de 180 dias após a emissão». Esse prazo terminou a 13 de setembro. O Brennan Center for Justice confirma que o prazo legal passou sem qualquer publicação.

A administração já tinha prometido publicá-la. Em abril, o presidente da Comissão de Informações do Senado, Tom Cotton, e o vice-presidente, Mark Warner, pediram a decisão no prazo de 15 dias para servir o debate no Senado. Em julho, questionado por escrito se a desclassificaria até ao fim dos 180 dias, Blanche respondeu: «Sim.» Clayton, que como diretor nacional de informações é legalmente responsável pela desclassificação, disse apenas, antes da confirmação, que o governo estava «a trabalhar arduamente para a desclassificar rapidamente».

«Se esta administração não cumpre esta simples diretiva legal, não se percebe porque é que o Congresso ou os norte-americanos deviam confiar que cumpre qualquer um dos outros limites legais da secção 702», escreveram Wyden e Schiff.

O que já se sabe sobre a decisão do tribunal FISA

O New York Times noticiou em abril, citando argumentos não classificados da administração enviados aos legisladores, que o tribunal considerou pesquisas sobre norte-americanos as próprias ferramentas com que as agências reduzem os dados intercetados às mensagens de um norte-americano. Por isso estão sujeitas aos mesmos limites, e o tribunal mandou refazê-las. O Departamento de Justiça está a recorrer de partes da decisão que limitam os seus filtros, segundo uma pergunta escrita do senador Alex Padilla a Blanche.

Um problema semelhante já tinha surgido. Uma decisão do tribunal FISA desclassificada no ano passado descrevia um «filtro de participantes» do FBI que permitia aos agentes selecionar pessoas em contacto com alvos de vigilância e ler as suas mensagens. Em fevereiro de 2025, o Departamento de Justiça informou o tribunal de que a ferramenta fazia pesquisas que ninguém contabilizava. O FBI desligou-a e mais tarde voltou a ligar uma versão refeita.

Fichas informativas das agências de informações de março de 2026 indicam uma taxa de conformidade de 98,9% nas pesquisas do FBI sobre norte-americanos e não referem as conclusões do tribunal. O inspetor-geral do Departamento de Justiça, na revisão de outubro de 2025, apontou 98,6% e não conseguiu concluir que os problemas do FBI com estas consultas estivessem «totalmente no passado». O senador Dick Durbin, que leu a decisão, disse aos colegas em junho que ela mudaria a sua visão sobre «o papel da FISA e os direitos dos norte-americanos».

Porque é que isto importa agora

A secção 702 expirou em junho porque o Congresso não a renovou, mas a recolha continua com a autorização do tribunal de março, válida até 17 de março de 2027. As agências de informações querem que o Congresso renove o programa até ao fim do ano. Na segunda-feira, a Demand Progress e outras 22 organizações, da ACLU ao Project for Privacy and Surveillance Accountability, apoiado por conservadores, pediram aos líderes do Congresso que não o renovem enquanto a administração esconder a decisão.

Os defensores da reforma dizem que a administração pode tentar incluir a renovação na lei anual da defesa, que o Congresso costuma aprovar em dezembro. Foi assim que o programa foi prorrogado por quatro meses em 2023. Por agora, nem a versão da Câmara dos Representantes nem a do Senado o incluem. A Casa Branca, o Gabinete do Diretor Nacional de Informações e o Departamento de Justiça não responderam às perguntas da WIRED.

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