O Congresso dos EUA pede ao tribunal secreto britânico que deixe a Apple informar os legisladores sobre a ordem de backdoor no iCloud
A 11 de setembro de 2026, o senador Ron Wyden e o congressista Warren Davidson enviaram uma carta ao presidente do Investigatory Powers Tribunal, o tribunal britânico à porta fechada onde a Apple contesta a ordem de acesso aos dados encriptados do iCloud. A queixa não é sobre a ordem em si, mas sobre quem tem autorização para a conhecer. A Apple informou o Congresso de que o Reino Unido lhe permitiu informar o procurador-geral e o vice-presidente dos Estados Unidos, proibindo-a expressamente de dizer mais alguma coisa ao Congresso.
Em resumo
- Um democrata e um republicano pedem ao tribunal audiências públicas, peritos técnicos independentes e a garantia de que nenhuma ordem de sigilo britânica impeça uma empresa americana de responder ao Congresso.
- O motivo: sob a mordaça britânica, a Apple pode informar o executivo mas não os legisladores, o que a carta classifica como tentativa de "ditar a distribuição de poderes dentro do Governo dos Estados Unidos".
- O novo recurso da Apple, apresentado em agosto, contesta o próprio poder do Governo para emitir tais ordens; há uma audiência processual marcada para este mês.
- À carta anterior do Congresso, em março de 2025, seguiu-se semanas depois a recusa do tribunal em manter o caso totalmente secreto.
Como o caso chegou aqui
A disputa tem já vinte meses e decorreu sobretudo em fugas de informação e despachos judiciais, não em peças públicas, porque uma Technical Capability Notice traz consigo a proibição legal de falar sobre ela. A sequência importa, porque a nova carta aposta em que a anterior resultou.
- Janeiro de 2025: o Home Office notifica a Apple de uma Technical Capability Notice ao abrigo do Investigatory Powers Act e exige uma forma de ler as cópias de segurança encriptadas do iCloud de utilizadores de todo o mundo.
- Fevereiro de 2025: a Apple desativa a proteção avançada de dados para os clientes britânicos em vez de construir esse acesso; o resto do mundo mantém-na.
- Março de 2025: a Apple apresenta o primeiro recurso no tribunal. Wyden, Davidson e outros legisladores escrevem ao tribunal a pedir que o caso seja julgado em público.
- Abril de 2025: o tribunal rejeita a tentativa do Governo de sigilo total e publica os "dados essenciais" do caso, incluindo os nomes das partes.
- Final de 2025: após objeções de Washington, o Home Office retira a ordem mundial e emite outra mais estreita, limitada aos dados de utilizadores britânicos. O primeiro recurso da Apple é arquivado por falta de objeto.
- Agosto de 2026: a Apple apresenta um novo recurso e, desta vez, contesta o próprio poder do Governo para emitir estas ordens.
- 11 de setembro de 2026: a segunda carta do Congresso chega antes da audiência processual que definirá como esse recurso será tratado.
O que diz a carta
As duas páginas são invulgarmente diretas para uma correspondência com um tribunal estrangeiro. Os autores escrevem que é "totalmente inapropriado que um órgão executivo estrangeiro tente ditar a distribuição de poderes dentro do Governo dos Estados Unidos" e que o Reino Unido "não pode defender a fiscalização parlamentar em casa enquanto usa mordaças administrativas para amputar a autoridade constitucional do Congresso dos Estados Unidos". Grande parte da carta é um argumento retirado da história britânica: William Pitt a chamar ao Parlamento "o grande inquérito da nação", Bagehot, Dicey e a ideia de que nenhum governo pode colocar as suas exigências fora do alcance dos legisladores.
Os pedidos práticos são três. Justiça pública neste processo, repetindo o pedido do ano passado. Acesso de peritos independentes em cibersegurança e das partes afetadas à avaliação da exigência técnica, que até agora só as partes e advogados com credenciação de segurança viram. E uma decisão que estabeleça que nenhuma exigência de vigilância emitida ao abrigo da lei britânica pode impedir uma empresa americana de informar plenamente o Congresso. A carta cita ainda Tulsi Gabbard, então diretora da Inteligência Nacional, que classificou a exigência original como "uma violação clara e flagrante da privacidade e das liberdades civis dos americanos".
O Guardian, que viu a carta antes do envio, noticiou que o Home Office foi contactado para comentar. O tribunal não está vinculado a nada do que o Congresso escreva. Também não estava em 2025 e, ainda assim, semanas depois da primeira carta rejeitou o sigilo total, notando que as observações recebidas "argumentavam fortemente a favor da justiça pública".
Porque é que o sigilo é o ponto central
Restringir a ordem aos utilizadores britânicos resolveu o problema diplomático e deixou intacto o problema técnico. Uma capacidade de desencriptar as cópias de segurança de um país tem de existir nos sistemas globais da Apple, e a única coisa que impede o seu uso noutro lugar é uma decisão política. É exatamente o tipo de afirmação que precisa de escrutínio externo, e é a que ninguém, fora da audiência à porta fechada, pode verificar. Comparámos como a Rússia, o Reino Unido, o Canadá e a Austrália escreveram as suas leis de backdoors; a britânica é a única em que a empresa visada está proibida até de reconhecer que a ordem existe.
O que isto significa se usa o iCloud
Fora do Reino Unido, no papel nada mudou: a proteção avançada de dados está disponível e, quando ligada, a Apple não guarda nenhuma chave das suas cópias de segurança, fotografias ou notas. Verifique em Definições, o seu nome, iCloud e Proteção Avançada de Dados. Se aparecer Desligada, a Apple pode desencriptar a sua cópia a pedido de qualquer governo com base legal válida, o que já era verdade antes deste caso. No Reino Unido o interruptor desapareceu, e a ordem atual diz respeito ao que a Apple tem de conseguir fazer com os dados que restam.
A nota honesta sobre VPN cabe aqui e resume-se a duas frases. Uma VPN muda a rede de onde parece ligar-se, não quem detém as chaves de uma cópia guardada nos servidores da Apple. Para este problema em concreto, a única definição que importa é se a encriptação ponta a ponta está ligada, e num país a resposta foi fixada por uma ordem que ninguém pode ler.
O tribunal pode ser obrigado a abrir a audiência?
A ordem ainda abrange utilizadores fora do Reino Unido?
O que é que a Apple contesta agora, exatamente?
Os utilizadores britânicos podem voltar a ligar a proteção avançada de dados?
Uma VPN ajudaria aqui?
• Letter from Senator Ron Wyden and Rep. Warren Davidson to the President of the Investigatory Powers Tribunal, 11 September 2026 (PDF)
• US lawmakers urge secretive British court to open up about Apple case - The Guardian
• Apple Inc v Secretary of State for the Home Department - Investigatory Powers Tribunal