HRW: Apple removeu 1213 aplicações a pedido da Rússia, quase 60% do total mundial

25.09.2026 7 min 4

A Human Rights Watch publicou a 24 de setembro um relatório sobre como a Rússia está a fechar as ferramentas que servem para contornar a censura. Cada acontecimento que ali consta passou na altura pelas notícias. Reunidos, desenham algo mais concreto do que «um aperto»: um Estado que deixou de perseguir o tráfego VPN e passou a apertar as empresas, os pagamentos e os canais de distribuição.

Há um número que convém pôr à frente. Em 2025 a Apple removeu 1213 aplicações a pedido da Rússia. Foi quase 60% de todas as remoções que a empresa fez no mundo a pedido de um governo.

Em resumo

  • Em fevereiro de 2026 estavam bloqueadas na Rússia pelo menos 469 VPN ao abrigo da lei de 2017.
  • Cerca de 57 milhões de pessoas, perto de 40% da população, usariam ali uma VPN.
  • A pressão passou para as lojas de aplicações, os meios de pagamento e os trabalhadores dos serviços VPN.
  • A Apple e a Google são o estrangulamento, e o aviso de remoção enviado na Rússia repete palavra por palavra o da China em 2017.

O que o relatório documenta de facto

Os bloqueios em si não são novidade e, pela própria bitola do Estado, não funcionam: as estimativas de utilização mantêm-se altas ao fim de anos de filtragem. Mudou foi o alvo. Em vez de correr atrás do tráfego, a pressão cai sobre tudo aquilo de que uma VPN precisa para existir como produto.

O caso mais nítido do relatório é a Amnezia VPN, em junho de 2026. Os endereços foram bloqueados em bloco, os trabalhadores receberam mensagens de phishing e o serviço sofreu ataques de negação de serviço. A recuperação levou mês e meio. Nada disto é moderação de conteúdos nem filtragem de tráfego. É um ataque a uma empresa.

QuandoO que aconteceu
Julho de 2024A Apple retira 25 serviços VPN da App Store russa a pedido do Roskomnadzor, entre eles NordVPN, Proton VPN, Red Shield VPN, Planet VPN e LeVPN
Fevereiro de 2026Um tribunal de Moscovo multa a Google em 22,8 milhões de rublos, cerca de 300 mil dólares, por serviços VPN distribuídos no Google Play
Fevereiro de 2026Pelo menos 469 VPN bloqueadas ao abrigo da lei de 2017
Março de 2026A Apple remove Streisand, V2Box, v2RayTun, Happ e Proxy Utility; o ministério manda as quatro maiores operadoras cortar o pagamento à Apple por conta do saldo móvel
Junho de 2026Amnezia VPN: bloqueio massivo de endereços, phishing contra os trabalhadores e ataques de negação de serviço; mês e meio para recuperar
4 de agosto de 202620 fornecedores de VPN na Rússia reportam falhas

Dois destes mecanismos contámos em separado à medida que surgiram: a passagem de bloquear as aplicações para bloquear o alojamento onde correm, e o pedido do regulador para que as aplicações russas detetem sozinhas uma VPN e comuniquem o que encontram.

469VPN bloqueadas em fevereiro de 2026
57 Mde pessoas na Rússia usariam uma VPN
1213aplicações removidas pela Apple a pedido russo em 2025
20fornecedores com falhas a 4 de agosto de 2026

A loja de aplicações é o ponto único de falha

Um endereço bloqueado substitui-se. Um protocolo bloqueado disfarça-se. O que não tem desvio é a remoção das duas lojas por onde quase todos os telemóveis do mundo instalam software. No iOS não há segundo canal, e no Android as alternativas são suficientemente técnicas para a maioria não as usar.

É aqui que a história deixa de ser russa. Quando a Apple retirou em março as aplicações VPN na Rússia, o aviso aos programadores dizia que a aplicação «incluía conteúdo ilegal na Rússia». Quando a Apple esvaziou a App Store chinesa de todas as grandes VPN em julho de 2017, o aviso dizia que as aplicações «incluem conteúdo ilegal na China». A mesma frase, o mesmo mecanismo, nove anos e um país de diferença. O modelo não pertence a nenhum governo em especial. Está ao alcance de todos, e a mesma loja já serviu para apagar um produto russo em todo o mundo quando a Apple removeu o VK globalmente.

De todas as aplicações que a Apple removeu no mundo em 2025 a pedido de um governo, que parte veio de pedidos russos?

Quase 60%, segundo a própria transparência da Apple tal como a cita a Human Rights Watch: 1213 remoções por pedidos russos, das quais 468 na categoria de utilitários, onde entram as VPN.

O que a Human Rights Watch pede e o que não pede

Aqui é preciso rigor, porque o relatório é resumido como uma exigência à Apple e à Google para deixarem de obedecer. O texto é mais prudente. Pede às empresas tecnológicas que resistam à pressão dos governos, e a outros governos e organizações que apoiem as ferramentas de acesso à informação. Não há uma lista de exigências dirigida a qualquer uma das empresas.

Essa prudência não é timidez, reflete a posição real das empresas. A Google foi multada por distribuir VPN no Play. A Apple recebe um aviso de que uma aplicação viola a lei russa. Recusar significa multas e, mais à frente, a questão de saber se a empresa opera no país. «Resistam à pressão» escreve-se com facilidade e paga-se caro, e o relatório não finge o contrário.

O que isto muda para quem lê fora da Rússia

Diretamente, hoje nada. Indiretamente, mostra onde a pressão aterra de verdade. Qualquer discussão sobre cifragem e contorno chega mais cedo ou mais tarde ao ponto em que o Estado não consegue quebrar a tecnologia. A partir daí deixa de tentar e vai ter com quem distribui o software. A empresa do meio não é parte no conflito nem tem interesse nele, e é precisamente isso que a torna o melhor sítio para carregar.

A leitura prática para o utilizador é mais baça: uma aplicação de que depende pode desaparecer da sua loja sem que no aparelho tenha mudado seja o que for, e a cópia já instalada deixa de receber atualizações. Convém saber isto antes de contar, e é por isso que nos países com filtragem pesada se guardam ficheiros de instalação e caminhos alternativos em vez de confiar que uma ficha na loja fica onde está.

Usar uma VPN é ilegal na Rússia?
Para o utilizador não é crime. A lei visa os serviços e a sua distribuição: fornecedores não ligados ao registo estatal de filtragem, publicidade a ferramentas de contorno e, desde setembro de 2025, a sua promoção, que foi o que sustentou a multa à Google.
Porque é que a Apple e a Google obedecem?
Porque a recusa é sancionada. A Google levou 22,8 milhões de rublos em fevereiro por VPN no Play. A Apple recebe um aviso que invoca a lei russa, e a alternativa são coimas crescentes e a dúvida sobre continuar no mercado.
Se a aplicação for removida, a minha cópia instalada deixa de funcionar?
Não de imediato. O que está instalado continua a funcionar, mas deixa de receber atualizações e os novos utilizadores do país já não a podem descarregar. Com o tempo torna-se uma aplicação abandonada, o que em software de segurança é um problema por si só.
Isto só acontece na Rússia?
Não. Em 2017 a Apple retirou as grandes VPN da App Store chinesa com exatamente a mesma fórmula. O mecanismo faz parte do funcionamento normal das lojas perante a lei local, e é exatamente isso que a Human Rights Watch assinala.
Dá para contornar uma remoção da loja?
No Android as aplicações também se instalam fora da loja, por isso ali as remoções pesam menos. No iOS não há equivalente geral, pelo que uma remoção da App Store num país é quase definitiva para novas instalações.

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