Toda a gente olhava para a Austrália. A proibição das redes sociais a menores de 16 anos entrou em vigor a 10 de dezembro de 2025, e governos de Londres a Kuala Lumpur diziam que iam avaliar os próprios planos pelo que acontecesse lá. Saiu a primeira avaliação oficial aos três meses, e o número principal não é o que os defensores da lei esperavam: mais de oito em cada dez adolescentes continuam nas redes sociais, e o regulador responsabiliza as plataformas, não as crianças.
O que o relatório mostra
A avaliação foi feita pela eSafety, o regulador australiano de segurança online, comparando um inquérito de base anterior às regras com os dados de três meses depois. O uso de pelo menos uma plataforma restrita desceu de 85,9% para 81,5%. A posse de contas caiu mais: de 52,4% para 42,1%, ou seja 10,3 pontos percentuais, sobretudo no YouTube, Snapchat e TikTok.
Houve mesmo contas apagadas. Acesso, não. As crianças dos 10 aos 15 anos entravam em março com uma frequência parecida com a de antes da proibição, e os pais sabiam menos do que antes o que elas andavam a fazer.
Como os adolescentes continuaram online
A parte mais útil do relatório é a lista dos contornos, porque mostra por onde o sistema deixa passar:
- Pouco mais de metade disse que a plataforma nunca lhes pediu para confirmar a idade.
- 37,1% limitaram-se a declarar que tinham 16 anos ou mais e passaram.
- 18,2% passaram por uma verificação de idade que os considerou, por erro, maiores de 16.
- 12% tentaram enganar a estimativa de idade pelo rosto com maquilhagem ou um documento alheio, e 10,9% tiveram ajuda de um dos pais.
- 7,4% usaram uma VPN.
A comissária da eSafety, Julie Inman Grant, aponta a causa sem rodeios: a razão principal para a proibição ter mexido tão pouco é a aplicação ineficaz da verificação de idade pelas próprias plataformas.
Porque esta não é a história de VPN que vai ser contada
Os 7,4% vão viajar mais longe do que qualquer outro número do relatório: é a primeira estatística oficial de um governo sobre o uso de VPN para contornar um limite de idade, e surge no meio de uma discussão em curso sobre restringir as próprias VPN.
Lido em contexto, diz o contrário. Uma ferramenta usada por 7,4% das crianças não explica que 81,5% tenham ficado online. Entre "não houve verificação nenhuma" e "usou uma VPN" a distância é de cerca de sete para um. Culpar as ferramentas de contorno pelo falhanço de um controlo que nunca foi aplicado é cómodo, mas foge à conclusão mais dura do relatório: as plataformas não verificaram.
O que vem a seguir
O governo não trata isto como derrota. O ministro adjunto Andrew Leigh comparou a lei à idade mínima para o álcool e lembrou que ninguém esperava 100% de cumprimento, apontando os milhões de contas encerradas. Camberra promete apertar a fiscalização e subir as coimas às plataformas que verifiquem só para inglês ver.
O relatório regista ainda os primeiros sinais de migração para serviços fora da lista, com Reddit e Pinterest referidos. É o padrão em que qualquer regime de bloqueios acaba por bater: o tráfego não para, muda-se para o que não estava na lista quando ela foi escrita.
O que os outros países levam daqui
A Austrália é agora o caso de referência para um grupo crescente de países que escrevem a mesma lei, e acompanhámos cada um deles: a proibição da Malásia para menores de 16 com verificação biométrica, as regras dos Emirados para menores de 15 e o regime de verificação de idade aprovado em Nova Iorque. A lista atualizada de países e limites de idade está no nosso guia das proibições de redes sociais para menores.
A leitura honesta para quem vive nesses países é que verificação de idade e privacidade seguem em rota de colisão. Quando a autodeclaração falha, o passo seguinte proposto é sempre uma identificação mais dura: leitura do documento, estimativa pelo rosto, confirmação bancária. Cada uma cria uma base nova que liga uma pessoa real a uma conta, e é por isso que na mesma conversa aparecem a ligação cifrada e a recolha mínima de dados. Uma VPN muda que rede vê o seu tráfego, não anula uma verificação de identidade, e os próprios números australianos mostram que aqui nunca foi o caminho principal.