Apple suaviza o pedido de consentimento de rastreio para as apps na UE
A Apple vai deixar as apps da União Europeia pedir autorização para rastrear os utilizadores com um ecrã mais suave. A partir do iOS 27.2 e do iPadOS 27.2, os programadores que distribuem na UE poderão substituir o pedido App Tracking Transparency mostrado desde 2021 por uma versão alternativa: uma página inteira em vez de um pop-up, sem a palavra "rastrear" em lado nenhum, botões "Permitir" e "Recusar" em vez de "Permitir" e "Pedir à app para não rastrear", cores e disposição diferentes, e uma ligação opcional "Informações adicionais" onde a app explica porque quer ligar o que sabe sobre si ao que sabem outras empresas. Na Alemanha, França, Itália, Polónia e Roménia o pedido antigo deixa de estar disponível de todo. As apps também poderão voltar a perguntar um ano depois de uma recusa. A mudança encerra um processo do Bundeskartellamt que a Apple resolveu com compromissos vinculativos a 17 de agosto e segue-se a multas de 150 milhões de euros em França e 98,6 milhões em Itália pelo mesmo mecanismo. A definição de privacidade da Apple também muda de nome: "Permitir que as apps peçam para rastrear" passa a chamar-se, na UE, "Permitir que as apps peçam para ligar a sua atividade entre empresas".
Em resumo
- A regra sobre quando uma app tem de perguntar não muda; mudam o aspeto da pergunta, o seu nome e a frequência com que pode ser repetida. O TechCrunch contou mais de meia dúzia de alterações, todas na direção de um ecrã menos alarmante.
- O caso dos reguladores não era sobre privacidade mas sobre autofavorecimento: as apps da Apple recolhem dados em todo o seu ecossistema para publicidade personalizada com um ecrã de consentimento mais amigável do que aquele que a Apple impõe a todos os outros. A Alemanha considerou que a diferença "ultrapassava o que podia ser justificado".
- Andreas Mundt, presidente do Bundeskartellamt, diz que o objetivo "expressamente não" é uma taxa de consentimento mais alta, mas uma escolha livre e informada em ambos os sentidos. As associações de publicidade e de media admitidas no processo queriam eliminar por completo a camada adicional da Apple; conseguiram uma neutra.
- Para o utilizador a alavanca prática mantém-se e vale a pena conhecê-la: com o interruptor global desligado nas Definições, as apps não podem mostrar nem o pedido nem a repetição anual, seja qual for o aspeto do ecrã. É a mesma lógica de consentimento ao nível do dispositivo que o iOS 27 usa para os dados de treino da Siri.
O que o novo pedido faz de diferente
Desde o iOS 14.5, em abril de 2021, qualquer app que queira ler o identificador de publicidade do dispositivo ou ligar de outra forma a sua atividade aos dados de outras empresas tem de mostrar o diálogo da Apple: "Permitir que a [app] rastreie a sua atividade nas apps e sites de outras empresas?", com "Pedir à app para não rastrear" como primeira opção. A maioria tocou nessa, e a indústria da publicidade litiga contra esse ecrã desde então. A versão para a UE que chega com o iOS 27.2 mantém a condição e o momento e muda a apresentação. A documentação da Apple para programadores descreve "formatação e linguagem modificadas", uma disposição em ecrã inteiro, um botão de texto "Informações adicionais" que abre a explicação do próprio programador sobre porque quer "ligar dados do utilizador ou do dispositivo recolhidos na sua app a dados do utilizador ou do dispositivo recolhidos em apps, sites ou propriedades offline de outras empresas para publicidade direcionada ou medição publicitária, ou partilhar dados do utilizador ou do dispositivo com um corretor de dados". Esta última frase é a definição legal de rastreio, agora impressa num ecrã que já não usa a palavra. Os botões passam a "Permitir" e "Recusar". E um programador pode voltar a perguntar a um utilizador da UE um ano depois da resposta anterior, "independentemente de essa escolha ter sido aceitar ou recusar", a menos que o utilizador tenha desativado os pedidos globalmente. Nos cinco países onde as autoridades da concorrência intervieram, Alemanha, França, Itália, Polónia e Roménia, só pode ser mostrada a nova versão; no resto da UE decide o programador.
Porque é que um regulador da concorrência redesenhou um ecrã de privacidade
O comunicado do Bundeskartellamt esclarece que o processo "não visava fazer cumprir a legislação de proteção de dados" e que a Apple "pode oferecer aos seus utilizadores um nível de proteção superior aos requisitos mínimos legais". O problema era a assimetria. Ao abrigo do parágrafo 19a da lei alemã da concorrência, o regime especial para empresas "de importância primordial para a concorrência em vários mercados", um gatekeeper que escreve regras adicionais para o seu ecossistema não pode aplicá-las a si próprio com mais indulgência. As apps da Apple pedem o consentimento para publicidade personalizada com formulação e design próprios; as apps de terceiros tinham de usar a da Apple, que na avaliação preliminar da autoridade "tinha potencial para dissuadir o consentimento", e por vezes tinham de perguntar duas vezes, uma para o RGPD e outra para a Apple. Os compromissos alinham os dois pedidos, eliminam "símbolos e formulações potencialmente dissuasores", permitem aos editores explicar o seu modelo de negócio e autorizam combinar o pedido da Apple com o consentimento do RGPD para que os utilizadores não sejam questionados sobre a mesma coisa duas vezes seguidas. A Autorité de la concurrence francesa chegou à mesma conclusão com uma multa em março de 2025, a AGCM italiana seguiu-a, e a Polónia e a Roménia têm processos próprios, razão pela qual são precisamente estes cinco mercados que perdem por completo o ecrã antigo. A citação de Mundt é o resumo honesto do compromisso: a autoridade não quer que mais pessoas digam sim, quer que o não e o sim sejam igualmente fáceis. Se um diálogo em ecrã inteiro sem a palavra "rastrear" e com um botão "Recusar" o consegue, ou se desloca o equilíbrio para quem pagou o litígio, é a pergunta empírica a que o próximo ano de taxas de consentimento vai responder.
O que fazer no seu próprio iPhone
Nada disto toca no interruptor principal. Nas Definições, em Privacidade e segurança e depois Rastreio, o interruptor "Permitir que as apps peçam para rastrear", renomeado na UE "Permitir que as apps peçam para ligar a sua atividade entre empresas", decide se uma app pode sequer mostrar o pedido. A documentação da Apple afirma que a um utilizador que o desligou "não pode voltar a ser pedido", o que faz dele a única definição que sobrevive ao redesenho e à tentativa anual. Outros dois interruptores contam pela mesma razão que levou os reguladores a intervir: a publicidade personalizada da própria Apple está em Privacidade e segurança, Publicidade da Apple, Anúncios personalizados, e vem ligada por predefinição; e o consentimento para o treino da Siri que o iOS 27 pede no primeiro arranque segue a mesma lógica de um interruptor ao nível do dispositivo que o ecrã da app não consegue contornar. De tudo o que uma app pode aprender sem o identificador, o sistema operativo mantém os seus próprios registos, como mostrámos para o computador na semana passada. O pedido redesenhado será mais suave, voltará todos os anos e em cinco países será o único que verá; se o vê ou não continua a ser uma decisão sua, tomada uma vez, nas Definições.