Na Rússia um operador móvel vende acesso a serviços bloqueados em vez de uma VPN
O maior operador móvel da Rússia começou a vender aquilo que os seus clientes obtinham com uma VPN. A 14 de agosto a MTS lançou o Acesso Global: um botão dentro da própria aplicação que abre o Spotify, a Netflix, o Ticketmaster e o Strava, serviços indisponíveis no país, com o pagamento das subscrições diretamente pelo saldo do telemóvel. A empresa diz que a tecnologia é sua, patenteada em 2025, e oferece-a nos dois tarifários mais caros.
O que o operador diz ter construído
Pela descrição da empresa, o utilizador abre a aplicação do operador, carrega num botão e chega à plataforma estrangeira sem instalar nada: sem proxy de terceiros, sem cliente de VPN. O pagamento da subscrição passa pela conta móvel. A redação do anúncio é cuidadosa: o serviço, diz, mantém o acesso a plataformas permitidas por lei cuja disponibilidade na Rússia foi restringida.
Nessa frase está a história toda. Um serviço bloqueado e um serviço permitido não são, nesta moldura, opostos. Existe agora uma categoria de coisas que se podem usar, mas apenas pela porta certa.
Porque isto não é uma VPN, mesmo substituindo-a
A direção da confiança está invertida
Uma VPN existe para tirar o tráfego do campo de visão do operador: ele vê um túnel cifrado e mais nada. Aqui o operador é o canal. Sabe que assinante foi a que plataforma e quando, porque é assim que a função trabalha, e recaem sobre ele as mesmas obrigações de conservação de qualquer operador russo. O pagamento pela conta do telemóvel fecha o círculo, ligando a atividade a uma identidade verificada. Como forma de ver um filme é cómodo; como privacidade é o oposto do que um túnel faz.
O que muda na prática
O acesso à internet exterior passa a ser uma função do tarifário, vendida pelo mesmo setor obrigado a filtrá-la. O cliente ganha comodidade e legalidade, o que não é pouco: nenhuma aplicação desconhecida, nenhum cartão que não funciona lá fora, nenhum risco de apanhar uma VPN falsa numa loja. Com a comodidade recebe também uma lista mais curta. Hoje quatro serviços, mais tarde prometem-se outros, mas a lista é sempre feita por outra pessoa.
Um operador concorrente fez o mesmo na internet fixa já em março, por isso não é uma ideia isolada mas a forma de um mercado a nascer: a internet bloqueada revendida aos pedaços por intermediários licenciados.
Perguntas sem resposta
O anúncio não explica duas coisas. Como chegam os pagamentos a empresas que saíram do mercado russo e quem decide que serviços entram na lista. Ambas as respostas pesam mais do que a própria função, porque determinam se isto é um produto técnico ou uma lista de permissões com uma página de pagamento colada.