Os britânicos empurram leis de verificação de idade nos EUA
Uma onda de lobby a favor da verificação de idade produziu nos estados americanos leis que se parecem umas com as outras de forma marcante, e uma investigação publicada pelo Effort em 10 de agosto de 2026 sustenta que isso não é coincidência. A partir de declarações de lobby, registros de agentes estrangeiros e dados de contratos públicos, ela segue cinco organizações britânicas e suas filiais nos EUA por 42 projetos de lei em 18 estados, dos quais 11 viraram lei. Os documentos em que se apoia são públicos. A seguir, o que eles mostram e o que não mostram.
O que a investigação encontrou
As cinco organizações citadas são a 5Rights Foundation, o Center for Countering Digital Hate, o Institute for Strategic Dialogue, a Reset Tech e a Age Verification Providers Association. O quadro foi montado com registros do Foreign Agents Registration Act, declarações do Lobbying Disclosure Act na base do Senado, dados de gasto federal no USAspending.gov, arquivos legislativos da Califórnia e registros britânicos da Charity Commission e da Companies House.
São exatamente o tipo de registro que sustenta o que se afirma ou não sustenta, e é aí que está o valor. Quem quiser conferir um número específico pode abrir a mesma base e olhar. Isso é uma situação bem diferente de uma acusação anônima sobre influência, e é por isso que vale levar o trabalho a sério mesmo onde a linguagem é mais afiada do que as provas.
A 5Rights e o modelo californiano
No centro está a 5Rights Foundation, a entidade beneficente britânica fundada pela baronesa Beeban Kidron, que segundo a investigação atuou em 42 projetos em 18 estados, com 11 virando lei. Seu trabalho de maior peso é o que fixou o padrão: a AB 2273 da Califórnia, o Age Appropriate Design Code, escrita nos moldes do código britânico de mesmo nome. Os próprios materiais de apoio do projeto o descrevem como inspirado no Age Appropriate Design Code britânico.
O detalhe em que a investigação insiste é processual. Ela relata que a 5Rights pagou 50 mil dólares ao escritório Capitol Connection para fazer lobby no legislativo californiano entre maio e setembro de 2022, e registrou esse trabalho sob o Foreign Agents Registration Act apenas em 2024, mais de um ano depois de a lei ser aprovada. Fazer lobby num legislativo estadual é totalmente legal, inclusive para uma entidade beneficente estrangeira. O que pesa é o atraso no registro, porque a divulgação existe justamente para que parlamentares e público saibam quem está pedindo enquanto o pedido acontece.
Reset Tech, CCDH e ISD: o rastro do dinheiro
A filial americana da Reset Tech gastou 1.352.800 dólares em lobby no Congresso e em legislativos estaduais entre 2024 e o segundo trimestre de 2026, segundo as declarações citadas. Dos seis projetos em que atuou, quatro coincidem com aqueles em que a 5Rights também esteve envolvida, e é essa sobreposição que a investigação lê como coordenação, e não como acaso. Sua entidade europeia recebeu 4,9 milhões de euros de financiamento da UE dentro de um consórcio liderado pelo Institute for Strategic Dialogue.
O próprio ISD aparece sobretudo como recebedor de dinheiro público: mais de 17 milhões de dólares em contratos, sendo cerca de 11,2 milhões dos Estados Unidos, 5,5 milhões da UE e 0,7 milhão do Reino Unido. O Center for Countering Digital Hate declarou valores bem menores, cerca de 55,7 mil dólares no total em quatro períodos. A investigação também registra que em 2024 o grupo America First Legal acusou o CCDH de violações do FARA. Uma acusação não é uma constatação, e não se relata nenhum procedimento que a tenha decidido; o Departamento de Justiça não respondeu ao pedido de comentário da investigação.
A questão da VPN, nas palavras deles
Para os leitores deste site, o mais direto não é o dinheiro e sim o objetivo político declarado. Em julho de 2026 a baronesa Kidron publicou um artigo intitulado "The VPN loophole in the fight to protect children", argumentando que restrições a redes sociais que deixam o acesso por VPN intacto são, nas palavras dela, para a foto e para as manchetes, não para as crianças. É uma posição dita para registro e é coerente: se o objetivo é que um menor não alcance um serviço, uma ferramenta que muda o país de onde a conexão parece vir atrapalha esse objetivo.
O contra-argumento não é que crianças devam driblar restrições. O Open Rights Group, organização britânica de direitos digitais, expôs isso num documento em setembro de 2025: a função de VPN vem dentro de Windows, macOS, Linux, Android e iOS, qualquer pessoa monta a própria VPN num servidor alugado em minutos, e bloquear provedores nacionais entrega o mercado aos estrangeiros. Exigir que sites detectem uso de VPN, segundo a ORG, gera falsos positivos e exclui usuários legítimos sem deixar de ser pouco confiável. A outra observação merece atenção: o salto nos downloads de VPN depois da chegada das checagens de idade vem principalmente de adultos que não querem entregar documentos a um verificador de idade que nunca ouviram falar.
O que a investigação não mostra
Três limites merecem ser ditos com clareza. Primeiro, o autor marca o mapa de atuações como um piso do que a equipe conseguiu verificar e diz que a lista pode estar incompleta, o que corta para os dois lados. Segundo, não há respostas das organizações citadas, então falta a versão delas; todas as cinco descrevem sua missão como proteção infantil, e nada nas declarações contradiz esse motivo. Terceiro, o texto transita entre declarações documentadas e caracterizações, e essas são provas de peso diferente. Um valor na base do Senado é conferível. Descrever o propósito de um grupo como controlar a fala na internet é uma interpretação, e assim deve ser lida.
Vale mencionar o veículo. O Effort publicou antes outra parte da mesma série sobre o lobby das plataformas nos mesmos projetos; a LWN, publicação técnica pouco dada a exageros, a descreveu como uma investigação extensa construída sobre registros públicos. Nem aquela nem esta passaram pelo ciclo de checagem e correção de uma redação grande, então a postura certa é seguir as referências, não os adjetivos.
Por que isso importa a quem usa VPN
A consequência prática é que a VPN deixou de ser um detalhe nesses debates. Virou a brecha citada em voz alta que os defensores querem fechar, e isso muda o que a próxima leva de projetos provavelmente vai conter. A trajetória aparece nas normas já aprovadas, das regras reunidas em nossa lista de países que restringem redes sociais por idade até o momento em que a checagem saiu dos sites e entrou no sistema operacional, quando Illinois assinou a HB 5511. É aí que está o limite honesto do que uma assinatura faz por você: uma VPN muda a localização aparente e esconde o tráfego da rede, mas não se coloca entre um aplicativo e o aparelho que informa a sua faixa etária. Onde a VPN continua servindo é na outra metade do problema, a coleta: um verificador de idade que nunca vê o seu endereço real aprende menos sobre você, e coletar menos segue sendo a única proteção confiável contra um vazamento futuro numa empresa que você não escolheu.