A Guiné Equatorial mantém Facebook e TikTok desligados há duas semanas por um vídeo que acusa o vice-presidente de corrupção; a autora está presa e uma VPN é a única entrada
Facebook e TikTok estão inacessíveis na Guiné Equatorial desde 2 de setembro, a velocidade da internet está reduzida há essas mesmas duas semanas, e WhatsApp e Instagram funcionam só por momentos, confirmou um jornalista da AFP no país na quarta-feira, 16 de setembro. O estopim foi um vídeo: uma jovem acusou de corrupção o vice-presidente Teodoro Nguema Obiang Mangue, conhecido como Teodorín, filho mais velho do presidente e seu sucessor designado; o clipe viralizou, as plataformas apagaram e a mulher foi presa. O Ministério da Informação não respondeu às perguntas da AFP. As duas redes mais populares do país agora só abrem por meio de uma VPN, o que faz da Guiné Equatorial o segundo Estado no mesmo canto da África Central, depois do Gabão, onde um túnel é a única forma de ver a internet comum.
Em resumo
- Desde 2 de setembro: Facebook e TikTok bloqueados, banda cortada, os demais aplicativos da Meta degradados. Nada foi anunciado; o bloqueio só se vê pelo que não carrega.
- O vice-presidente do vídeo é o mesmo Teodorín condenado na França em 2021 no caso dos "bens mal adquiridos" e submetido no mesmo ano a um congelamento de ativos no Reino Unido; ele é conhecido por exibir carros, jatos e festas justamente nas plataformas que seu governo acaba de desligar.
- O país tem histórico: um apagão de 14 meses na ilha de Annobón a partir de agosto de 2024 e um dos seis apagões registrados na África Central em 2025. Ao lado, o Gabão mantém as redes sociais bloqueadas desde fevereiro, deixando cerca de 800.000 usuários sem acesso a um custo estimado de 1 bilhão de francos CFA por dia.
- Para quem está dentro, a resposta prática é a mesma de todo apagão que cobrimos, desde o apagão total do Irã em janeiro: uma VPN enquanto os enlaces internacionais aguentarem, e um plano para o dia em que não aguentarem.
O que se sabe do bloqueio
O relato da AFP é preciso na mecânica e mudo nos papéis, porque não existem. A partir de 2 de setembro a conexão ficou lenta para todos; Facebook e TikTok pararam de abrir sem VPN; WhatsApp e Instagram, também da Meta, continuaram funcionando, mas "de forma limitada". Nenhum decreto, nenhum comunicado do regulador, nenhum reconhecimento do ministério. A sequência bate com a forma como o país tratou a internet até aqui. A Guiné Equatorial é governada desde 1979 por Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, há mais tempo que qualquer outro chefe de Estado africano, e há uma década a internet é cortada em torno de eleições e distúrbios; a partir de agosto de 2024, a ilha de Annobón, cujos moradores haviam protestado contra explosões de uma construtora, ficou isolada por catorze meses. O Institute for Security Studies contou pelo menos 15 apagões na África em 2025, seis deles na África Central, Guiné Equatorial incluída. O novo desta vez é o estopim. Não foi uma votação nem uma revolta, mas um vídeo sobre um homem, e esse homem é o vice-presidente que deve suceder ao pai.
O homem do vídeo
Teodorín Obiang é um dos poucos políticos cujo caso de corrupção pode ser acompanhado no próprio Instagram. Em 2021 a mais alta corte da França confirmou sua condenação por lavagem de dinheiro público desviado: três anos de prisão com suspensão, multa de 30 milhões de euros e confisco de bens, entre eles uma mansão na avenida Foch, em Paris; em setembro de 2025 a Corte Internacional de Justiça rejeitou a tentativa da Guiné Equatorial de recuperar o prédio. O Reino Unido congelou seus ativos e o proibiu de entrar em 2021, sob suas sanções anticorrupção. Nada disso era segredo em casa, mas quem contou a história, de fora, em francês e em inglês, foram tribunais e imprensa estrangeiros. Em setembro a acusação veio pela primeira vez de dentro, num formato que o país inteiro usa, e se espalhou pelas duas plataformas que alcançam mais gente. A resposta do Estado, prender a autora e retirar as plataformas, é o mesmo reflexo que o Gabão teve em fevereiro, quando greves em escolas e hospitais transbordaram para as redes, e que transformou a demanda por VPN num indicador de tensão política em toda a região. Ela pune 1,9 milhão de pessoas por um clipe, e não remove o clipe, que já está em cada telefone que o baixou.
O que funciona dentro de um apagão assim
Um bloqueio de plataformas com banda reduzida é a forma mais leve de apagão, e é para ela que uma VPN foi feita: os enlaces internacionais estão de pé, só as rotas para serviços específicos são filtradas, então um túnel até um servidor no exterior carrega Facebook e TikTok como tráfego criptografado comum. Três coisas importam na prática. Instalar e testar o aplicativo antes de precisar, porque lojas de aplicativos e sites de provedores de VPN costumam ser os próximos a serem filtrados; manter um segundo provedor ou um servidor próprio como reserva; e preferir protocolos feitos para parecer tráfego web comum, já que um governo que aprendeu a bloquear uma plataforma logo aprende a bloquear um protocolo. A lentidão é o sinal de alerta. Com a velocidade cortada, uma VPN ainda funciona, mas cada página demora mais, e quando o Estado passa da filtragem ao corte total, como a Guiné Equatorial fez em Annobón, nenhum túnel ajuda, e é por isso que existe nosso guia de mensagens mesh offline. Usar VPN não é infração pela lei equato-guineense, até onde as notícias mostram, mas a mulher que publicou o vídeo está presa, e é isso, mais que o bloqueio técnico, a mensagem que o governo quer transmitir.
O que está bloqueado na Guiné Equatorial?
Por que foram bloqueados?
Quem é Teodorín Obiang?
É o primeiro apagão por lá?
Uma VPN funciona lá agora?
• Coupure de Facebook et TikTok en Guinée équatoriale - AFP via La Libre
• Equatorial Guinea: Facebook, TikTok Shut Down in Equatorial Guinea After VP Corruption Video - Leadership via allAfrica
• Internet shutdowns won't solve Central Africa's political crises - Institute for Security Studies