O seu router pode estar a trabalhar para estranhos: como perceber e o que fazer

17.08.2026 5 min 4

Uma rede de aparelhos infetados chamada Dysphoria cresce há um mês, e vive precisamente nos equipamentos que as pessoas têm em casa: routers, gateways de internet e câmaras IP. No relatório de 12 de agosto, a Shadowserver Foundation contou cerca de 296.000 dispositivos comprometidos, contra 200.000 no início do mês. O que merece atenção não é o tamanho mas o segundo emprego dessas caixas. Além de participarem em ataques, são alugadas como proxies residenciais: desconhecidos navegam pela sua morada doméstica enquanto está sentado ao lado do aparelho.

296.000aparelhos infetados na contagem de 12 de agosto
200.000o número registado duas semanas antes

Como dar por isso sem ferramentas especiais

Outra pessoa na sua morada deixa rastos que se veem do sofá. Os sites começam a pedir várias vezes por dia que prove que não é um robô. A Google mostra a página sobre "tráfego invulgar da sua rede". Uma loja ou um banco recusa a entrada a partir da rede de casa, e alguns serviços colocam-no num país onde nunca esteve. O envio arrasta-se enquanto a descarga parece normal, porque a sua linha leva tráfego alheio para fora. O router aquece ou reinicia sozinho, e o painel abre devagar ou pede uma palavra-passe que nunca definiu.

Nenhum destes sinais prova sozinho uma infeção, todos têm também uma explicação aborrecida. Mas dois ou três ao mesmo tempo, num aparelho sem atualizações há anos, chegam para lhe dedicar vinte minutos esta noite.

O que fazer esta noite

  1. Abra o painel do router e mude a palavra-passe de administrador. Não a do Wi-Fi, a da própria caixa. Palavras-passe de fábrica e reutilizadas são a via principal de tomada destes aparelhos, e fechá-la não custa nada.
  2. Desligue a administração remota. Nas definições chama-se acesso remoto, gestão a partir da WAN ou gestão na nuvem. Se não administra o router de casa a partir de um café, ninguém deve conseguir alcançá-lo de fora.
  3. Desative Telnet e SSH se estiverem ligados. Em equipamento doméstico quase nunca são precisos, e adivinhar palavras-passe contra eles é exatamente como esta rede se alastra.
  4. Instale a atualização de firmware. Na maioria dos routers é um botão no painel. Se o fabricante não publica nada há dois ou três anos, trate o aparelho como expirado e não como fiável.
  5. Veja o encaminhamento de portas e as entradas UPnP. Tudo o que não tenha criado, apague. Se nada em casa precisa de porta de entrada, desligue o UPnP por completo.
  6. Confira a lista de dispositivos ligados. Nomes que não reconhece valem uma averiguação; em muitos routers bloqueia-se um dispositivo com um clique enquanto percebe o que é.
  7. Se vários sinais coincidirem, faça uma reposição de fábrica e configure o router de novo. É meia hora de trabalho e leva tudo o que vivia na configuração.

Duas coisas que não ajudam. Reiniciar remove parte do software malicioso que vive apenas em memória, mas não altera nada quanto a uma palavra-passe fraca ou a uma porta de gestão aberta, por isso o aparelho é retomado em poucas horas. E uma aplicação de VPN no portátil protege o tráfego desse portátil; não toca no router, que é um computador à parte, com software próprio e porta de entrada própria.

Câmaras e aparelhos inteligentes, a metade mais difícil

Uma câmara é um pequeno computador com Linux ligado à rede, e recebe muito menos atenção do que um telemóvel. As regras são mais simples do que no router. Não dê a uma câmara uma porta direta da internet; se precisa de ver à distância, use a aplicação do fabricante em vez de uma porta aberta. Mude a palavra-passe de fábrica no próprio aparelho, não só na aplicação. Ponha câmaras, tomadas, televisores e aspiradores numa rede de convidados, para que um aparelho com firmware abandonado não veja o seu portátil, as cópias de segurança nem a impressora.

E seja honesto quanto à idade. Uma câmara que deixou de receber atualizações em 2020 não fica segura à custa de definições. Quando o fabricante saiu, a única cura real é a substituição, e equipamento atual barato vale mais do que equipamento caro abandonado.

Porque é que alguém quer o seu router

Porque a sua morada parece comum. O tráfego vindo de um centro de dados qualquer serviço reconhece e recusa sem esforço; o de uma linha doméstica num bairro residencial, não. Por isso o acesso a aparelhos domésticos raptados vende-se à hora, e por isso os problemas caem sobre si: queixas, bloqueios e suspeitas colam-se à morada, não a quem paga o proxy. O equipamento que o operador lhe deu há anos e em que nunca mais tocou serve na perfeição, e o bilhete de entrada costuma ser uma palavra-passe que ninguém mudou.

Nada disto é um projeto de segurança. É uma lista para uma noite e, ao contrário da maioria dos conselhos, acaba com um resultado mensurável: o número de caminhos para a sua rede doméstica cai de vários para quase nenhum, e assim fica até ao próximo aparelho que comprar.

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