Irlanda multa a Google em 403 milhões de euros por rastrear a localização sem base legal
A Comissão de Proteção de Dados da Irlanda (DPC) multou a Google Ireland em 403 milhões de euros pela forma como recolhia, explicava e guardava os dados de localização dos utilizadores. A decisão, anunciada a 21 de setembro, encerra uma investigação aberta em fevereiro de 2020 e abrange três definições: "Atividade na Web e nas aplicações", "Histórico de localizações" e "Precisão da localização". A Google tem seis meses para pôr o tratamento em conformidade com o RGPD. A empresa chama ao caso "histórico" e, segundo a RTE, vai recorrer.
Em resumo
- O regulador considerou ilícito e desleal o tratamento da localização em "Atividade na Web e nas aplicações" e "Histórico de localizações", insuficientes as explicações das três funções e excessivo o tempo de conservação nas duas primeiras. Na "Precisão da localização", a Google nem sequer conseguiu demonstrar que tinha uma base lícita, leal e transparente.
- O período analisado é curto: de 25 de maio de 2018, dia em que o RGPD passou a aplicar-se, a 4 de fevereiro de 2020. O caminho até à decisão foi longo: as associações de consumidores apresentaram as primeiras queixas em novembro de 2018, pelo que a multa chega quase oito anos depois.
- 403 milhões de euros é a quarta maior multa na história do regulador irlandês, atrás da Meta (1,2 mil milhões), do TikTok (530 milhões) e do Instagram (405 milhões). Outras três investigações da DPC à Google continuam abertas, todas em fase avançada, escreve o Irish Examiner.
- As mesmas definições continuam a existir, algumas com outro nome. Mais abaixo, o que verificar na sua própria conta e porque é que uma VPN não desliga nenhuma delas.
Três interruptores, uma multa
As três funções trabalham de forma diferente e a DPC aponta a cada uma falhas distintas. "Atividade na Web e nas aplicações" é uma definição da conta que guarda o que faz nos serviços Google e, se uma caixa adicional estiver marcada, também em aplicações e sites de terceiros que usam serviços Google, localização incluída. O "Histórico de localizações", agora "Cronologia", mantém um mapa de por onde passaram os dispositivos com sessão iniciada, mesmo sem nenhuma aplicação Google aberta. A "Precisão da localização" é uma definição do Android que afina a posição do telemóvel ao analisar redes Wi-Fi e antenas móveis; funciona com ou sem conta Google.
| Definição | O que faz | O que a DPC concluiu |
|---|---|---|
| Atividade na Web e nas aplicações | Guarda pesquisas, atividade em aplicações e sites e localização na conta; em 2018 vinha ativada por predefinição no registo | Tratamento da localização nem lícito nem leal; explicações insuficientes; dados guardados mais tempo do que o necessário |
| Histórico de localizações (Cronologia) | Mapa, ativado a pedido, de locais visitados, percursos e atividades dos dispositivos com sessão iniciada | Tratamento da localização nem lícito nem leal; explicações insuficientes; dados guardados mais tempo do que o necessário |
| Precisão da localização | Posicionamento ao nível do Android por sinais Wi-Fi e móveis além do GPS; não exige conta | A Google não conseguiu demonstrar o cumprimento do princípio da licitude, lealdade e transparência; explicações insuficientes |
O comissário adjunto Graham Doyle resumiu o dano numa frase: por causa destas falhas, "as pessoas podiam não saber que a sua localização estava a ser usada, por exemplo, para as influenciar com anúncios ou para inferir os seus interesses, e podiam perder o controlo sobre os seus dados pessoais. A conservação dos dados de localização por mais tempo do que o necessário agravou essa perda de controlo". Os três comissários que assinam a decisão, Des Hogan, Dale Sunderland e Niamh Sweeney, ordenaram a conformidade em seis meses. O texto integral será publicado mais tarde, pelo que ainda não se sabe como os 403 milhões se repartem pelas quatro infrações.
Oito anos da queixa à decisão
O caso começou com um relatório, não com uma fuga. Em novembro de 2018, o Conselho de Consumidores da Noruega publicou "Every Step You Take", uma análise passo a passo de como um telemóvel Android empurra um novo utilizador para o rastreio das suas deslocações: a configuração inicial insistia no "Histórico de localizações"; a "Atividade na Web e nas aplicações" vinha ativada por predefinição e escondida atrás de cliques adicionais; o facto de a localização alimentar a publicidade estava enterrado; quem recusava voltava a ser questionado no Maps, no Assistente e noutras aplicações; e funções como o Assistente ou as fotografias ordenadas por local vinham presas ao rastreio. No mesmo mês, associações de consumidores de oito países, coordenadas pelo BEUC, apresentaram queixas RGPD às respetivas autoridades nacionais. Como a sede europeia da Google fica em Dublin, o processo foi parar à DPC.
- O Conselho de Consumidores da Noruega publica "Every Step You Take"; associações da Noruega, Países Baixos, Grécia, Chéquia, Eslovénia, Polónia, Suécia e Dinamarca apresentam queixa.
- Fim do período analisado pela DPC. No mesmo mês, o regulador abre por iniciativa própria uma investigação como autoridade principal para a Google.
- Dez associações de consumidores apresentam uma segunda ronda de queixas, sobre a criação de conta: um clique liga todas as definições de recolha, o caminho mais privado exige cinco passos e nove cliques.
- A DPC anuncia a decisão: quatro infrações, 403 milhões de euros, seis meses para cumprir.
- Prazo de cumprimento. A Google deverá recorrer por questões de direito, segundo a RTE.
O BEUC saudou o resultado e criticou o calendário. O diretor-geral Agustín Reyna disse que a decisão "confirma a ilegalidade da forma como a gigante tecnológica obteve o consentimento para usar os dados de localização das pessoas", mas que "o tempo necessário para chegar a esta conclusão é desproporcionado face à gravidade da infração" e que "uma aplicação tardia da lei pode ser tão prejudicial como nenhuma". A conduta sancionada terminou em fevereiro de 2020, e a Google passou os anos seguintes a reconstruir precisamente as definições em causa.
O lugar na tabela irlandesa
A DPC é a autoridade principal para a maioria das plataformas americanas na UE, por isso as suas multas servem também de marcador europeu. Os 403 milhões da Google ficam logo abaixo dos 405 milhões aplicados ao Instagram em 2022 pelas contas de menores e acima dos 390 milhões que a Meta pagou em 2023 por basear a publicidade no contrato em vez do consentimento.
| Empresa | Multa |
|---|---|
| Meta, transferências de dados para os EUA (2023) | 1.200 M€ |
| TikTok, transferências para a China (2025) | 530 M€ |
| Instagram, contas de menores (2022) | 405 M€ |
| Google, dados de localização (2026) | 403 M€ |
| Meta, base jurídica da publicidade (2023) | 390 M€ |
| TikTok, contas de menores (2023) | 345 M€ |
| LinkedIn, perfis publicitários (2024) | 310 M€ |
Google: "políticas históricas"
Em público, a Google não contesta as conclusões. "Este caso gira em torno de políticas históricas que entretanto foram atualizadas", disse um porta-voz. "Desde 2019, evoluímos significativamente as nossas práticas e lançámos ferramentas robustas que tornam simples a gestão dos dados de localização". As ferramentas existem de facto: a eliminação automática dos dados de atividade chegou em 2019; em dezembro de 2023 a Google anunciou que a "Cronologia" passaria dos seus servidores para o telemóvel, com cópia de segurança cifrada na nuvem e eliminação automática predefinida aos três meses em vez de 18; hoje a ajuda da Google indica que a localização aproximada e o endereço IP associados à "Atividade na Web e nas aplicações" são apagados ao fim de 30 dias. Desde maio de 2026, a própria "Atividade na Web e nas aplicações" está a ser dividida em "Histórico dos serviços de pesquisa" e "Recomendações personalizadas".
Dois reguladores fora da UE chegaram antes a conclusões semelhantes e receberam antes. Em novembro de 2022, a Google fechou um acordo de 391,5 milhões de dólares com 40 estados dos EUA pelo mesmo desenho: entre 2014 e 2020, quem desligava o "Histórico de localizações" continuava a ser rastreado através da "Atividade na Web e nas aplicações". Em agosto de 2022, o Tribunal Federal da Austrália aplicou-lhe 60 milhões de dólares australianos, por ação da ACCC, porque os ecrãs do Android apresentavam o "Histórico de localizações" como a única definição relevante, quando a "Atividade na Web e nas aplicações", ativada por predefinição, também guardava a localização. A investigação irlandesa cobre os mesmos meses e os mesmos dois interruptores; demorou mais quatro anos.
Verifique a sua própria conta
Todas as definições da decisão continuam a existir, algumas com um nome novo, e as predefinições melhoraram, não desapareceram. Desligar a "Cronologia" não impede que a localização seja guardada noutro lado: a página de ajuda da Google avisa que, com o "Histórico dos serviços de pesquisa" ou a "Atividade na Web e nas aplicações" ligados, a conta "pode continuar a guardar dados de localização". A ordem importa, por isso siga ponto por ponto.
- Conta Google, "Dados e privacidade", "Definições do histórico": abra "Atividade na Web e nas aplicações" (ou "Histórico dos serviços de pesquisa", o nome que a Google está a introduzir desde maio de 2026) e decida se a mantém. Se ficar, defina a eliminação automática para 3 meses.
- Na mesma definição, desmarque "Incluir o histórico do Chrome e a atividade de sites, aplicações e dispositivos que usam serviços Google". É essa caixa que traz a atividade e a localização das outras aplicações.
- "Definições do histórico", "Cronologia" (ou Google Maps, fotografia de perfil, "Cronologia"): desligada, ou ligada com eliminação automática aos 3 meses e a cópia de segurança cifrada que escolheu.
- No Android: "Definições", "Localização", "Serviços de localização", "Precisão da localização da Google". Desligado significa apenas GPS e sensores. A "Procura de Wi-Fi" e a "Procura de Bluetooth", no mesmo menu, também alimentam o posicionamento, mesmo com a localização desligada.
- O meu Centro de anúncios (myadcenter.google.com): desative os anúncios personalizados. É aí que vão parar os "interesses inferidos" da decisão da DPC.
- myactivity.google.com: apague a atividade passada por período; no Maps, apague a "Cronologia" inteira ou por dias.
A VPN pertence a outra lista. Substitui o endereço IP que os sites, e a Google, veem, ou seja, a "área aproximada" que entra na "Atividade na Web e nas aplicações" pelo lado da rede. Não mexe no GPS, no Wi-Fi nem no posicionamento móvel, nem numa conta com sessão iniciada no telemóvel: com os interruptores acima ligados, os servidores da Google recebem pelo túnel VPN os mesmos dados que sem ele. No Android, o próprio túnel também não é estanque, como mostrou este mês a recusa da Google em corrigir uma fuga de IP por fora da VPN. Use a VPN para o que ela sabe fazer, esconder a sua localização de rede de sites e redes, e as definições da conta para aquilo por que a Google foi multada.
Há uma segunda razão para vigiar onde ficam estes dados. É o "Histórico de localizações" que a polícia pede quando quer saber quem esteve perto do local de um crime; em junho, o Supremo Tribunal dos EUA decidiu no caso Chatrie que esses pedidos exigem um mandado. Dados que só estão no seu telemóvel e expiram ao fim de três meses não se tiram de nenhum servidor.
Por que motivo exatamente a Google foi multada?
A multa abrange o que a Google faz hoje?
A Google vai pagar?
Uma VPN impede a Google de saber onde estou?
Porque demorou seis anos?
• Data Protection Commission fines Google €403 million following Inquiry into Google's processing of location data - Data Protection Commission
• Google fined for invasive location tracking after BEUC complaint - BEUC
• Google fined €403m by Irish data watchdog over location data - RTE
• Irish data protection watchdog fines Google €403m over GDPR breaches - The Irish Times
• Google manipulates users into constant tracking - Forbrukerrådet
• European consumer groups take action against Google for pushing users towards its surveillance system - BEUC
• Updates to Location History and new controls coming soon to Maps - Google
• Manage your Timeline - Google Account Help
• Forty Attorneys General Announce Historic Settlement with Google over Location Tracking Practices - New Jersey Office of the Attorney General
• Google LLC to pay $60 million for misleading representations - ACCC
• Google fined €403m by Ireland's Data Protection Commission for GDPR breaches - Irish Examiner
• GDPR Enforcement Tracker, largest fines - CMS