Empresa de publicidade israelita suspeita de rastrear utilizadores da Starlink em 105 países
Uma empresa de publicidade israelita comprava espaço publicitário dirigido a utilizadores da Starlink com um padrão que, segundo os investigadores, parece mais vigilância do que publicidade. A TrendAI, unidade de investigação da empresa de segurança japonesa Trend Micro, concluiu que um licitante a que chama SHADOW-EARTH-79 ganhava cerca de 13% de todos os leilões de anúncios observados no tráfego da Starlink, contra cerca de 3% de um licitante médio, e era o principal vencedor nesse tráfego em 105 países. Seis fontes disseram à Reuters a 27 de outubro que o nome de código corresponde à Discover-Tech, uma empresa que o Citizen Lab acusa, num relatório separado, de distribuir spyware através de anúncios.
Como um leilão de anúncios denuncia um utilizador da Starlink
Antes de mostrar um anúncio, uma app ou um site faz um leilão numa fração de segundo. O pedido enviado aos compradores pode conter o endereço IP do utilizador, a localização aproximada, a rede a que o endereço pertence e dados do dispositivo, como o modelo e o tamanho do ecrã. Os endereços da Starlink estão no bloco de rede próprio da SpaceX, AS14593, por isso qualquer licitante percebe que a ligação passa por uma antena de satélite. O vencedor pode ainda correr o seu próprio código dentro do anúncio, que pode recolher mais dados.
A TrendAI trabalhou com a telemetria de uma única plataforma de compra de anúncios e isolou o tráfego dos endereços da Starlink. A atividade do licitante estava concentrada nesse tráfego, incluindo em países onde a Starlink é proibida ou restrita, como a Síria, o Sudão, Myanmar e a Líbia. A Reuters, citando as fontes, acrescenta que era o maior comprador de anúncios na Síria, Líbia, Iémen e Sudão do Sul. O relatório lembra que a Starlink é muito usada em zonas de conflito com redes terrestres danificadas e conclui, com confiança moderada a elevada, que a atividade «funciona como infraestrutura de seleção de alvos e rastreio» e não como publicidade.
Discover-Tech, a empresa por trás do nome de código
A TrendAI não nomeou a empresa. Segundo a Reuters, cinco fontes disseram que a administração levantou preocupações jurídicas e os investigadores desistiram. No mesmo dia, 15 de outubro, o Citizen Lab da Universidade de Toronto e a Confiant, especializada em segurança publicitária, nomearam a Discover-Tech num relatório separado. Segundo o Citizen Lab, esta empresa israelita, registada em 2020, gere uma plataforma chamada Controlium que permite aos clientes visar utilizadores concretos pelo identificador de publicidade, cookie ou endereço IP e enviar-lhes código dentro dos anúncios. O Citizen Lab liga a plataforma ao fabricante de spyware Candiru e diz que pelo menos 45 dispositivos da Al Jazeera foram atacados em 2024 e 2025 com spyware da Candiru distribuído através de anúncios da Discover-Tech.
A Google cortou o acesso da Discover-Tech às suas bolsas de anúncios, e a Google e a IAB Europe retiraram-na das suas listas de fornecedores no início de outubro. A Comcast e outras plataformas também a afastaram, segundo a Reuters. Pelo menos uma grande tecnológica norte-americana e uma organização internacional abriram averiguações internas para saber se os anúncios visavam o seu pessoal. A Discover-Tech e a SpaceX não responderam aos pedidos de comentário.
O que está provado e o que não está
Os dados sobre a Starlink mostram licitações invulgares, não o rastreio confirmado de pessoas concretas. A TrendAI avisa que a localização por IP pode estar errada e que os dados vêm de uma única plataforma. A ligação entre o SHADOW-EARTH-79 e a Discover-Tech assenta em fontes anónimas. As infeções na Al Jazeera são a parte que o Citizen Lab documenta com registos de rede e semelhanças de código.
O que reduz a exposição
Os dois relatórios dão conselhos semelhantes: repor com regularidade o identificador de publicidade do telemóvel, desligar a personalização de anúncios, usar bloqueadores de anúncios e limitar as apps financiadas por publicidade. A TrendAI recomenda ainda o modo de bloqueio (Lockdown Mode) do iPhone a pessoas em risco. Uma VPN muda o endereço IP e a rede que os licitantes veem, pelo que o leilão deixa de mostrar uma ligação Starlink, mas não elimina o identificador de publicidade nem os dados do dispositivo que as apps colocam nos pedidos. O Citizen Lab só refere uma VPN como serviço com bloqueio de anúncios integrado, em que a proteção vem do bloqueio.
• Invasive Ads: The Unconventional Cyber Surveillance Attack Surface - TrendAI Research
• How Discover-Tech Turned Targeted Ads Into a Pipeline for Zero-Click Mercenary Spyware - Citizen Lab
• Alleged Israeli spy company heavily targeted Starlink users (Reuters) - BusinessDay
• Ads or Surveillance? Researchers Flag Suspicious Targeting of Starlink Users - Security Affairs