Polícia de Amesterdão apreende para os EUA servidor de fornecedor ativista italiano
A polícia de Amesterdão apreendeu um servidor do Autistici/Inventati (A/I), um coletivo de voluntários italiano que desde 2001 aloja correio eletrónico, sites e blogues para ativistas. Agiu na terça-feira, 13 de outubro, na sequência de um pedido de auxílio judiciário dos Estados Unidos, segundo o jornal neerlandês NRC, e um porta-voz da polícia confirmou. Os EUA acusam o A/I de apoiar o movimento antifa e incluíram-no em agosto na sua lista de sanções antiterroristas. O A/I já tinha encerrado em setembro, pelo que o que os norte-americanos querem agora são os dados que ficaram.
O que fez a polícia
O servidor foi retirado de um centro de dados na zona leste de Amesterdão, perto do Science Park. A polícia disse à emissora regional NH Nieuws que está a fazer uma cópia dos dados para os norte-americanos: «Retiramos os dados e disponibilizamo-los à América. É uma espécie de cópia.» Afirmou que não olha para o conteúdo e que não pode comentá-lo, e que o servidor voltará ao centro de dados quando terminarem. A polícia não disse que dados serão entregues. Nenhuma das notícias menciona uma análise do pedido por um tribunal neerlandês.
Uma pessoa ligada ao A/I disse ao NRC que não estava «preocupada, mas surpreendida». Esperava que a dissolução do coletivo bastasse aos norte-americanos e garantiu que o servidor não contém nada que possa causar problemas aos antigos utilizadores. Segundo a mesma fonte, o servidor estava cifrado e era uma das últimas peças de infraestrutura à espera de ser removida.
Porque é que os EUA visaram o A/I
A 26 de agosto, o Office of Foreign Assets Control do Tesouro norte-americano designou o A/I como Specially Designated Global Terrorist, juntamente com a Palestine Action e a Masar Badil. O Tesouro descreveu o A/I como uma entidade que fornece «arquitetura digital, ferramentas e serviços especializados a células antifa e a outros extremistas violentos de extrema-esquerda», incluindo correio cifrado, alojamento de sites e a sua plataforma Noblogs. Acrescentou que o A/I só serve utilizadores cuja afinidade ideológica verifica, e citou entre eles o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). O mesmo comunicado afirma que os EUA «não sancionam pessoas por se exprimirem politicamente». O A/I rejeita o rótulo de terrorismo e descreve o seu trabalho como ferramentas de autodefesa digital para ativistas.
As sanções produziram efeito em poucos dias. O PayPal suspendeu a conta do coletivo a 27 de agosto. A 28 de agosto, o domínio autistici.org deixou de funcionar depois de a Public Interest Registry, a operadora norte-americana do .org, o ter colocado em serverHold, o mesmo tipo de bloqueio que deixou os links t.me do Telegram inoperantes durante cerca de um dia em julho, após outra inclusão da OFAC. O Banca Etica italiano congelou a conta bancária a 1 de setembro. A 6 de setembro, o A/I anunciou o encerramento, invocando o risco de «consequências legais e financeiras para quem está perto de nós». Com ele desapareceram cerca de 16 000 caixas de correio, 1500 sites, 5500 listas de correio e 10 000 blogues.
O que isto mostra sobre o alojamento na Europa
Um fornecedor italiano, um centro de dados neerlandês e uma polícia europeia não bastaram para manter os dados fora do alcance dos EUA. A base legal foi um acordo de auxílio judiciário mútuo entre os Países Baixos e os Estados Unidos, e a polícia de Amesterdão disse que não se ocupa do que está no servidor. O domínio do A/I caiu porque o seu registo é norte-americano. O PayPal está sujeito às sanções dos EUA, e um banco italiano preferiu congelar a conta a arriscar-se a violá-las. O grupo de defesa da liberdade de expressão ARTICLE 19 avisou em setembro que suspender o domínio de um fornecedor «pode desativar em simultâneo milhares de sites e serviços de correio sem qualquer relação entre si».
Para quem usa um pequeno fornecedor focado na privacidade, a lição é mais restrita do que «a Europa não é segura». O que protegeu aqui os antigos utilizadores do A/I, se a fonte tiver razão, foi o servidor estar cifrado e o coletivo ter deixado de prestar serviços antes da apreensão. O sítio onde está um servidor importa menos do que aquilo que nele se guarda de forma legível.
• Politie neemt server in beslag bij datacenter in Oost, op verzoek van Amerika - NH Nieuws
• Treasury Takes Action Against Violent Far-Left Terrorist Networks - U.S. Department of the Treasury
• Dutch Police Seize Italian Internet Provider's Server at US Request - CircleID
• Italian hosting collective Autistici/Inventati is shutting down after a US terrorist designation - TNW
• Why has the US seized Autistici/Inventati servers in Amsterdam? - Digit (site36)